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Quanto mais Wilder, melhor

Cinesesc apresenta mostra com filmes do diretor de 'Crepúsculo dos Deuses' e 'Pacto de Sangue

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2013 | 02h10

Billy Wilder ganhou duas vezes o Oscar de direção - por Farrapo Humano, em 1945, e Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Por mais merecidos que tenham sido os prêmios, onze entre dez críticos serão capazes de jurar que Wilder merecia mais - ou que a Academia de Hollywood errou. Se era para premiar um de seus clássicos noir, Pacto de Sangue e Crepúsculo dos Deuses teriam sido escolhas mais certeiras. E, quanto às comédias, se Quanto Mais Quente Melhor foi escolhida pelo American Film Institute como a melhor de todos os tempos, como - sim, como - foi ignorada pela mesma Academia?

Quando Wilder morreu - de pneumonia, em 2002, aos 95 anos -, não dirigia havia mais de uma década. Buddy, Buddy/Amigos, Amigos, Negócios à Parte é de 1981. Não foi um fecho de ouro para uma carreira tão brilhante, mas o grande diretor passou seus últimos anos recebendo honrarias e homenagens - e também trabalhando, com espartana dedicação a projetos que nunca mais se concretizaram. Seu nome virou sinônimo de humor crítico, corrosivo. Wilder como diretor de comédias era uma consequência de seu começo como roteirista de Ernst Lubitsch. Mas Wilder fez um atalho e, antes de se estabelecer como rei do humor, exercitou-se no cinema noir.

Todo Wilder estará agora de volta na grande retrospectiva que o Cinesesc dedica ao grande artista e que começa amanhã. Todo Wilder! Para cada uma de suas fases, teve um colaborador - Charles Brackett para os filmes noir; I.A.L. Diamond para as comédias. Wilder nasceu em Viena, filho de um hoteleiro, em 1906. Foi jornalista e roteirista de Robert Siodmak. Conta a lenda que teria tentado entrevistar o próprio Sigmund Freud. O advento do nazismo levou-o a fugir e, antes dos EUA, ele passou pela França, onde fez o primeiro longa, La Mauivaise Graine, com Danielle Darrieux, em 1933. Nos EUA, estreou com A Incrível Suzana, nove anos mais tarde. O filme conta a história de um homem que se envolve com uma garota disfarçada de menino, num trem. O jovem Wilder já abordava temas um tanto escabrosos, como pedofilia e homossexualismo, mas Ginger Rogers, que fazia a travesti, já era mulher, e isso saltava aos olhos.

Pacto de Sangue, baseado numa história de James M. Cain, é considerado o mais noir dos filmes noir. A mulher fatal Barbara Stanwyck induz Fred MacMurray a matar seu marido, mas Edward G. Robinson, como o agente da seguradoras, não se deixa enganar. Com Farrapo Humano, investigando a mente enferma de um alcoólatra, durante um fim de semana de abstinência, Wilder ganhou o primeiro Oscar. O filme é o protótipo do que ficou conhecido como "problem movie", o filme-problema, consciente de sua dimensão social. Exagera, talvez, nos efeitos de luz e sombra - a herança expressionista - e, com certeza, não é um grande Wilder, um dos melhores, pelo menos. Crepúsculo dos Deuses, com seu olhar arguto sobre os bastidores de Hollywood, é melhor.

A estrela Norma Desmond contrata um roteirista para escrever o filme que marcará seu retorno triunfal à tela. Gloria Swanson cria uma personagem maior que a vida - e lamenta para William Holden como os filmes ficaram pequenos. O desfecho é antológico - a enlouquecida Norma, depois de matar o roteirista, prepara-se para o "close". Pedro Almodóvar, que é fã de Billy Wilder, diz que só aquilo já vale a existência do cinema. O diretor ainda fez A Montanha dos Sete Abutres em 1951, mas seu ataque à imprensa sensacionalista - no personagem de Kirk Douglas -, foi muito avançado para a época e o público rejeitou o filme (que hoje é cult). Wilder deu então a grande guinada para o humor, com uma comédia desenrolada num campo de prisioneiros, durante a 2.ª Guerra Mundial, Inferno 17.

Veio o interregno romântico de Sabrina - o que quer a personagem de Audrey Hepburn? O marido rico ou o príncipe encantado? O humor impôs-se com dois tributos a Marilyn Monroe, o Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor. De novo o travestismo: Tony Curtis e Jack Lemmon vestem-se de mulher. E tem ainda a frase que entrou para a história, "Ninguém é perfeito". Wilder nunca parou de surpreender. Antecipou a débâcle do comunismo (o jogo imperialista de Cupido Não Tem Bandeira), fez o mais hitchcockiano dos filmes de suspense que Alfred Hitchcock não assinou (A Vida Íntima de Sherlock Holmes), voltou aos bastidores da imprensa (A Primeira Página) e do cinema (Fedora). O ciclo vai exibir cópias novas de longas como Crepúsculo, Quanto Mais Quente e Pacto de Sangue. Wilder não gostaria do chavão, mas não há como fugir. A roupa nova só vai ajudar a mostrar que Wilder talvez só se tenha enganado uma vez. Ninguém é perfeito, mas não nada. O cinema dele é (perfeito).

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