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Laura Greenhalgh
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Quanto mais, melhor

Em 2011, tive o privilégio de conversar com o arquiteto suíço Jacques Herzog sobre seus projetos pelo mundo e o do Centro Cultural da Luz, em São Paulo. Ele passava pela cidade com seu sócio, Pierre De Meuron, e aqui participaria de debates. Parte da prosa aconteceu num deslocamento de carro numa tarde paulistana típica, em que se demora uma hora para varar 10 quilômetros. Enquanto nosso motorista transpirava para fugir do engarrafamento, Herzog explicou didaticamente o projeto a ser erguido ao lado da Estação Júlio Prestes.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h10

Ter uma aula do autor - que assina arquiteturas marcantes como a Tate Modern londrina e o Estádio Nacional de Pequim, o "Ninho de Pássaro" - foi o privilégio. Mas, tempos depois, quando tomei nas mãos o projeto básico, um calhamaço de capa branca com mil e uma plantas e um estudo sobre São Paulo, o privilégio virou convencimento: passei a não ter dúvida de que o futuro centro, a um só tempo vizinho da sede palaciana da Osesp, dos becos da cracolândia e de museus importantes, faria da cidade em que vivo um lugar diferente. Melhor. Ali reconheci a ousadia do ex-governador José Serra ao propor uma obra dessa envergadura, para uma área tão degradada da metrópole.

Dias atrás soubemos que do Palácio dos Bandeirantes partiu a ordem de paralisar o projeto, que já deveria ter saído do chão. O governador Geraldo Alckmin teria justificado a decisão se recusando a investir num "centro para rico". Querendo ou não, tocou numa questão-chave: nossos equipamentos culturais têm que obedecer a critérios classistas, guiados por uma lógica elitizante? Com que elementos haveremos de defender que pobres só querem frequentar espaços culturais feitos para pobres? Talvez seja mais fácil comprovar o contrário: ontem, hoje e sempre, ricos gostam de circular em espaços culturais de ricos.

Cultura faz bem a todos, acima de origem, classe ou status econômico. E não tem contraindicação: quanto mais, melhor. Virou um mantra chato dizer que o problema do Brasil é a educação de má qualidade, como se as mazelas do País pudessem ser solucionadas dentro de uma sala de aula. A maioria, sim. Mas nem todas. Além daquilo que a sala de aula constrói (e forma) no indivíduo, é preciso contar com a ação sutilíssima da cultura sobre as nossas sensibilidades, cultura em seus múltiplos domínios e linguagens, ajudando-nos a ressignificar a vida e a nos ressignificar diante dela. E isso é pouco?

O governador em campanha diz-se contrário a mais um centro cultural para as elites, então, vejamos: o que administrações sucessivas têm feito para povoar nossas periferias com espaços culturais bons, modernos e permanentes? Sabem os nossos programadores culturais como os moradores de São Miguel Paulista assistem a um bom filme? Vão ver numa igreja evangélica da região. Porque cinema lá não existe. Nem teatro. Nem sala de concerto. Nem museu ou galeria de arte. Sobraria o funk da periferia, não fosse a esperteza dos pastores, que de casa cheia entendem.

O projeto da Luz, em sua versão primeira, teria 100 mil m², num terreno que o Estado conseguiu ao custo de 205 imóveis desapropriados e R$ 65 milhões pagos em indenizações. Nessas dimensões o projeto foi encomendado em 2008, pelo então secretário estadual de Cultura, João Sayad. O tempo passou e o escritório suíço já teve que encolher a planta para 73 mil m², cortando, além de oficinas, uma biblioteca de artes performáticas, iniciativa inédita no País. Agora fala-se em novo encolhimento para atrair parceria público-privada que viabilize o projeto - e assim não se jogar no lixo os R$ 58 milhões pagos aos arquitetos, sem falar no cancelamento de dois financiamentos já aprovados, um de R$ 233 milhões do BNDES e outro de US$ 100 milhões do BID. O custo geral da obra hoje não fica por menos de R$ 600 milhões.

Antes que o terreno desapropriado vire estacionamento, aí sim, ao gosto das elites, pensemos por que este projeto serve bem para São Paulo. Primeiro, ele tem alta qualidade, é arrojado e causará impacto na reurbanização dessa área, servida por ônibus, metrô e trens da CPTM. Com rampas que saem da rua e se cruzam, criando um jogo de espaços abertos e fechados, Herzog quis forçar a circulação de pessoas pelo complexo, criando uma interação com o entorno que a Sala São Paulo não possibilita (até por ter sido concebida voltada para dentro, defendida do exterior).

Vai ter gente pobre subindo as rampas? Certamente. Vai ter gente pobre nas salas de espetáculo? Idealmente. Vai se manter uma programação elevada ainda assim? Seguramente! Que cegueira a nossa achar que um garoto ou um casal da periferia não possam captar a beleza de uma sinfonia de Beethoven ou de uma coreografia de Balanchine. Que arrogância a nossa supor que não possam ser tocados em sua sensibilidade e que isso não os faça melhor. Que ingenuidade imaginar que, feito o primeiro contato, não queiram saber mais sobre Beethoven e Balanchine .

Já ouvi o argumento até entre amigos: por que um centro como este, que de saída seria a sede da Escola de Música Tom Jobim e da São Paulo Companhia de Dança, na mesma região da Sala São Paulo? Inverto a pergunta: por que não um centro como este ao lado da linda sala? A metrópole sofre da falta, não do excesso, de equipamentos culturais. Nova York tem 54 mil poltronas de teatro disponíveis para 8,3 milhões de habitantes. Londres, 78 mil para 7,6 milhões. São Paulo, 35 mil para 12 milhões. Em meados de 1920, no tempo dos cine-teatros, havia na cidade 20 habitantes por assento disponível. Hoje são 316.

Parte de um projeto de reurbanização em Nova York, o Lincoln Center nasceu em 1957 fazendo uma aposta no futuro. O Upper West Side era uma favelona. Aos poucos, foi se constituindo ali um centro de artes performáticas e hoje ninguém pergunta por que a Metropolitan Opera está ao lado da New York Philharmonic, que é vizinha do New York City Ballet, ali pertinho da Juilliard School ou do Jazz at Lincoln Center. Doze instituições compõem o sistema e público não lhes falta - mais de 4 milhões de pessoas por ano e milhares de empregos gerados. Tem mais: a taxa de valorização imobiliária na região, entre 1963 e 2003, foi de 2.608%, ao passo que para o resto de Manhattan foi de 447% na média.

O governador poderia pesar a decisão. Ou, talvez, fosse recomendável abrir o debate. Para ter acesso à cultura, os pobres não precisam ficar confinados à periferia, em equipamentos feitos para eles - embora proximidade seja crucial. Mas eles também desejam ter acesso ao que há de melhor no mundo das artes em São Paulo, criando um vínculo de pertencimento com a metrópole. Pensemos nisso. Ou estejamos preparados para o rolezinho na ópera.

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