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Quanto mais cedo, melhor

Na semana que vem, cerca de 70 mil crianças nascidas em 2012 vão participar, em Nova York, da maior expansão de um programa pré-escolar dos Estados Unidos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2016 | 03h00

O primeiro dia do programa Pre K NYC (de Pre-Kindergarten, jardim de infância), na quinta-feira, vai ser curto. A meninada vai ter até a semana seguinte para se adaptar a seis horas e meia diárias nas escolas públicas. Dar acesso ao pré-escolar a todas as crianças de 4 anos foi uma promessa de campanha que o prefeito Bill de Blasio começou a cumprir em setembro passado.

O programa da cidade é ambicioso, maior do que o de vários estados e custa caro – US$ 10.200 mil anuais por criança – contra a média nacional de US$ 4.100. O prefeito preferiu não começar oferecendo Pre K apenas para crianças pobres e implementou o acesso universal tão rápido, contratando 2 mil professores com nível universitário, que seus adversários gritaram, “debacle à vista!” mas era a canoa deles que estava furada: Ao final do primeiro semestre, 92% dos pais se declararam contentes com o Pre K NYC.

Parabéns, prefeito. Agora, vamos arranjar vaga para crianças de 3 anos? E, depois, vamos imitar Chicago e lançar um programa de acompanhamento de bebês em casa? Estes nova-iorquinos, nunca estão satisfeitos.

Não se trata de achar que os cofres públicos são inesgotáveis. Quanto mais os cientistas se debruçam sobre o começo da infância, mais compreendem a importância dos anos antes da chegada à escola para determinar a capacidade de aprender nos 12 anos seguintes.

O programa de Chicago se chama 30 Milhões de Palavras. Um estudo de 1995 apurou que, ao chegar aos 4 anos, uma criança pode ter escutado menos 30 milhões de palavras do que outra criança. Esta desigualdade de vocabulário tem influência direta sobre a alfabetização, anos depois. Por que a diferença? E ela se deve à classe socioeconômica? Não, a pobreza não é o único fator. Embora a desvantagem social tenha peso expressivo, a pobreza crucial é a de conversa, de adultos que não interagem com bebês, desde o nascimento. Disse adultos, não mãe e pai, porque, quando os dois trabalham, bebês passam mais horas acordados com outro adulto.

No 30 Milhões de Palavras, após o parto no Centro Médico da Universidade de Chicago, as mães recebem a visita de duas pessoas que oferecem uma apresentação de quinze minutos e perguntam: Quer ajudar a aperfeiçoar o cérebro do seu bebê?

Ao contrário de outros órgãos do corpo, o cérebro é um órgão inacabado no nascimento. Décadas de propagação sobre o determinismo da herança genética têm cedido território para a janela da neuroplasticidade – a mudança do cérebro ao longo da vida – mas há um novo foco intenso no período do nascimento aos 3 anos, crucial para adquirir linguagem. A arquitetura do cérebro estará 80% desenvolvida até os 3 anos.

Pesquisadores contrapondo crianças pobres e afluentes de apenas 2 anos, verificaram um atraso de 6 meses na aquisição de linguagem. Mas crianças pobres expostas constantemente à conversa mostram desempenho melhor do que crianças afluentes em ambientes que os médicos chamam de “pobres de linguagem.” Não estamos falando de curso superior ou português sem erros gramaticais. Estamos falando de falar.

O programa de Chicago é liderado pela cirurgiã pediátrica Dana Suskind, especialista em implantes cocleares que permitem que crianças surdas de nascença possam ouvir. Ela notou resultados diferentes para o implante, dependendo do ambiente da criança. O 30 Milhões de Palavras promove visitas de orientação às mães, nos primeiros seis meses de vida do bebê.

A dra Suskind quer que a conversa com bebês e crianças em idade pré-escolar se torne quase uma segunda natureza na sociedade, como usar cinto de segurança no automóvel. Ela é consultora da campanha de Hillary Clinton. Se o boquirroto ignorante perder em novembro, mais pais vão compreender melhor quando e como falar pelos cotovelos pode mudar o destino de seus filhos. 

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