REUTERS/Christian Hartmann
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Quanto mais a pandemia do novo coronavírus amedronta, mais a sociedade confia no jornalismo

Com o vírus à espreita de suas moradas, até os fascistinhas de WhatsApp buscam socorro em reportagens sérias

Eugênio Bucci, Especial para O Estado de S. Paulo

29 de março de 2020 | 05h00

Com a explosão da pandemia causada pelo novo coronavírus, o jornalismo cresce na preferência dos brasileiros. Para quando podemos esperar a vacina? Que medicamentos têm prognóstico positivo no combate aos sintomas? O confinamento é eficaz? Em que formatos? O que vai acontecer na economia? O tecido social vai se esgarçar? Enquanto o presidente da República aposta em sandices criminosas para desorientar a sociedade aflita e excitar suas falanges digitais (a última foi dizer que “brasileiro pula no esgoto e não acontece nada”), é na imprensa que as pessoas vão buscar respostas dignas de crédito. 

As maiores redações profissionais no Brasil já perceberam que algo mudou. Ampliando os horários de seus telejornais, a Rede Globo colhe mais audiência (no Ibope, vem alcançando sozinha um índice maior do que a soma de todas as concorrentes). O Jornal Nacional virou um programa diário obrigatório para quem quer uma leitura responsável do que se passa. Aqui mesmo, no Estado, o aumento do número de assinaturas (no impresso e no digital) é relevante, no dizer dos editores. Uma pesquisa do Datafolha divulgada na segunda-feira, dia 23, revelou que os programas jornalísticos da TV, com 61%, e jornais impressos, 56%, lideram os índices de confiança do público para se informar sobre a pandemia. Quanto a Google e Facebook, ficam com apenas 12%. 

Em outro monitoramento, o Dapp (Diretoria de Análise de Políticas Públicas), da Fundação Getúlio Vargas, atestou que, entre os dias 12 e 24 de março, os vídeos mais vistos no YouTube e no WhatsApp sobre a covid-19 eram “quase todos” produzidos por veículos jornalísticos. No exterior, o quadro não é diferente. Um levantamento da agência Global de Comunicação Edelman, realizada em dez países (Brasil inclusive) entre os dias 6 e 10 de março, mostrou que, para 64% dos entrevistados, os jornais são os mais confiáveis entre todas as fontes de informação – num resultado que marca um forte crescimento em relação às pesquisas anteriores. De acordo com a Edelman, o Brasil ainda fica um pouco atrás da média global, mas acompanha a tendência favorável ao jornalismo registrada nos outros países.

Os números indicam uma revalorização do trabalho jornalístico. Na verdade, indicam mais do que isso. Essas cifras integram um universo de mudanças de atitude que sinalizam uma espécie de despertar, ainda tímido, da razão. A civilização que foi parar na enfermaria (e na UTI) parece tentar fazer as pazes com a sensatez e com a empatia. Ninguém aqui quer bancar o otimista, mas olhemos à nossa volta. Num mundo em que ninguém mais parecia disposto a se entender com ninguém, estabeleceu-se, em prazo recorde, um consenso surpreendente em torno da ideia de que os governos vão dar dinheiro para proteger os mais pobres. Algo realmente está mudando.

A mentira perde popularidade. Mesmo aqueles que se deliciavam em trabalhar de graça para o bolsonarismo espalhando fake news descobriram que, quando se trata da saúde da família, é na imprensa que podem confiar. Os cabos eleitorais da extrema direita são os que mais sabem do pacto com a fraude informativa patrocinada pelo presidente que aí está. Portanto, são os que mais sabem que não dá para se fiar no BolsoNero (para usar aqui o apelido que lhe foi conferido por Frei Betto e, esta semana, pela revista The Economist). Com o vírus à espreita de suas moradas, até os fascistinhas de WhatsApp buscam socorro em reportagens sérias. 

Melhor assim. Que sejam bem-vindos. Uma sociedade sem imprensa, sem ciência, sem universidade, sem liberdade, sem apego à verdade dos fatos, sem compaixão e sem capacidade de diálogo não tem chances de sobreviver. 

EUGÊNIO BUCCI É PROFESSOR DA ECA-USP E ARTICULISTA DO ‘ESTADO’

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