Quantas verdades ou...

Quantas mentiras, eis a questão deste Brasil que um dia foi de todos nós.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 06h41

Que existem muitas verdades num país onde o real é o que está nos autos? Na terra na qual o que conta são as versões do fato, pois os fatos são sempre inatingíveis? No país onde a verdade é tão variável quanto o clima? Aprendi como a verdade tinha a ver com força e poder quando, pequeno, me obrigavam a sair de casa de capa num dia ensolarado. Que ela seja dependente de quem fala - os muitos que gostam de mim falam a verdade, os poucos que não me amam mentem - eu pesquisei, escrevi e hoje lamento que nem a esquerda tenha acabado com essa indecente relatividade.

Uma verdade de um lado e do outro dos Pirineus. Ou, como dizem os velhos ianques hoje quase todos esclerosados, uma verdade acima e outra abaixo do Rio Grande, onde começa a tal Latin America - antigo Terceiro Mundo, trocando de lugar com eles.

Uma verdade masculina e outra feminina como me explicava um taxista. Nós, homens, éramos ardentes e infiéis; elas, leais por índole. Não tendo contato direto com a juventude, como eu, o sábio machista não percebia quanto sua tese poderia ser posta de cabeça para baixo. Os atributos humanos são móveis e, por isso, sujeitos de crenças inabaláveis. Pois só o incerto é alvo de certezas.

Ninguém tem fé num ovo frito! Cremos em Cristo, não nos pregos que o supliciaram. Mas todos sentimos a sombra da superstição que é o apanágio dos livros sagrados diante de um fato incerto; ou de um evento insofismável, mas deformado pelo poder. Como decidir quando se trata de uma conversa entre um ex-presidente mandão, um ex-ministro da Justiça (que é cega) e da Defesa (que deve tudo ver) e um magistrado da mais alta corte de Justiça de um país - um juiz ciente de seu saber e das pompas do seu cargo? Num diálogo no mínimo complexo entre essas figuras - que dizem o certo por linhas tortas; ou o torto por linhas certas -, como não inventar algum tipo de convicção que ajude a suspender o juízo ou a enterrar a razão? Razão, aliás, que por sua vez, não existe neste nosso mundo submoderno onde nada - e só o nada - é plausível e real?

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A verdade verdadeira só pode nascer por fé ou apoiada em critérios externos. Os meios de reprodução da vida seriam provas da verdade. Mas as coisas se complicaram porque tudo é possível por meio de montagens, de modo que se pode duvidar da prova fotográfica ou sônica. Um governador é filmado recebendo uma bolada; um sujeito é televisionado saindo com uma cesta de dólares de um elevador; uma senhora, esposa de um ilustre deputado, vai a um banco e é filmada pegando um dinheiro; ouvimos conversas fraternais entre um senador, um contraventor e seus associados; vemos fotos de um governador com um empresário com o qual se fizeram contratos de milhões. Em Júpiter e no Inferno, tudo isso seria um testemunho. Mas no Brasil do "tu é nosso e nós somo teu" - o velho Brasil do toma lá dá cá que transformou o governo numa casa-grande e a sociedade numa senzala -, isso é versão! A coisa mais inefável no Brasil de hoje é provar algo contra alguém que seja "nosso".

Temos fé ao contrário: acreditamos que a verdade não existe e que os fatos são fabricações. Pergunta-se: a bomba atômica e a goiabada cascão existem? O homem foi mesmo à Lua? Existe morte? Tivemos escravidão?

Falarei apenas sobre o homem na Lua. Sobre isso, ouvi do meu pai uma negação impetuosa: seria um truque dos americanos! Prova cabal: eles desceram na Lua e nela, conforme sabemos, não se desce, sobe-se. Ela está no céu, acima de todos nós!

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"Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade."

Essa meditação de Fernando Pessoa serve de epígrafe ao meu livro Carnavais, Malandros e Heróis (de 1979). Nele, eu argumento que o carnaval é uma expressão dessa sociedade nascida da duplicidade ética que, para o bem e para o mal, acasalou igualdade e hierarquia. Escrevi num momento em que as teorias somente contemplavam o falso e o verdadeiro, o conflito ou a paz, como queria Karl Popper e Karl Marx. Há um Brasil da casa e das amizades que não foi soterrado, como as ruínas de Roma, por um Brasil republicano, hoje, petista. Disseram que eu idealizava o Brasil tradicional. Eu pergunto: o Brasil de Lula e Dilma é tradicional ou moderno? Quem fala a verdade? O ex-presidente ou o magistrado do Supremo? Poderia haver uma verdade numa sociedade sem bom senso e sem um mínimo de decência? Essa decência das crianças que sabem quando os doces acabam, porque é no limite que se esconde a verdade?

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