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Quando vamos malhar o Judas?

Na Quaresma, odiava aquele rádio desligado, não podia ouvir o ‘Balança Mas Não Cai’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 03h00

Memórias atrasadas, mas bem lembradas. A gente adorava o carnaval, apesar das restrições de certas mães. Podíamos ver o corso desde que, antes, passássemos pela Matriz e rezássemos a Hora Santa inteira. A igreja era sombria, iluminada por parcas luzes e a Hora Santa era rezada em tom soturno. 

Jamais esqueço a primeira frase. “Esta é a hora três vezes santa pela venturosa presença de Jesus Cristo junto às nossas almas miseráveis.” Por que três vezes santa? E por que nossas almas eram miseráveis? O que tínhamos feito? Culpas, mentes atropeladas.

Por que era pecado cantar e dançar aquelas marchinhas? “Maria escandalosa, desde criança sempre deu alteração. Na escola, não dava bola. Só aprendia o que não era da lição.” Como aprender o que não era da lição? Imaginemos o que foi a infância de Weintraub, o da ortografia incorreta, burra, ouvindo tais músicas? Ficava tiririca? Maria? Rebelde, comunista, descolada? Ah, as liberdades que estão escoando hoje para o esgoto da imundície bolsonária.

Depois do carnaval, instalava-se um período sombrio, a Quaresma. As imagens e os quadros de santos eram cobertos nas igrejas e nas casas. Os sinos deixavam de tocar. As campainhas sonoras eram substituídas pelas matracas, pec pec pec pec, ferro contra madeira. Havia confusão, porque os vendedores de biju também usavam a matraca, vendendo pelas ruas. Na minha casa, gente católica a mais não poder, não se ouvia rádio. As famílias que se reuniam à noite para ouvir a novela desapareciam. 

Cortava-se um momento importante na vida social, as rodas de conversas, fofocas, trocas de informações (quem está doente, quem sarou, quem morreu) e receitas. Eu odiava aquele rádio desligado, porque, aos sábados, não podia ouvir na Rádio Nacional (a Globo da época) o Balança Mas Não Cai. Como me divertia, como eram bons aqueles atores e atrizes. Alguns eram do teatro rebolado, ídolos nacionais. E hoje? Foram-se todos aqueles veteranos excepcionais, restou uma coisa pálida, grosseira, com exceção do Adnet. Justo no momento em que mais precisamos do humor para temperar a grosseria dos tempos que correm.

Quaresma, depois Semana Santa e, enfim, a Páscoa. Semana Santa com procissões noturnas, as luzes da cidade apagadas, os fiéis levando velas dentro de cartuchos de papel, Cristo morto no seu caixão, Verônica cantando e mostrando o rosto de Jesus em um pano ensanguentado. 

Era um filme de terror. Adorávamos. Assim como íamos ver Drácula e Frankenstein e depois Zé do Caixão. Nunca esquecemos, Zé Celso e eu, o Zé do Caixão Mojica Marins à janela comendo carne de porco gordurosa, enquanto a procissão da Paixão passava diante de sua janela em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Iconoclastia, era isso. Era o que queríamos ser. No sábado de Aleluia, a alegria era restaurada, sinos tocavam, luzes se acendiam, automóveis buzinavam, sinos tocavam, trens apitavam, saíamos a malhar o Judas. Quando vamos sorrir e malhar esse Judas?

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