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Ignácio de Loyola Brandão
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Quando um homem se sente traído

Nessa quarentena, tem gente pirando. Eu mesmo tenho feito besteiras que me preocupam

Ignacio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 03h00

Lembrando de Nirlando Beirão, a pessoa mais gentil que conheci na vida e cujo texto fará falta na imprensa e na literatura. Agora a morte está vindo de batelada. Juntos, o músico Aldir Blanc e o ator Flávio Migliaccio

Todos nós, diariamente, ligamos para amigos para saber como estão de saúde e suportando a quarentena. Uma dessas ligações foi para Humberto, amigo que faz vídeos de todos os gêneros, alertando que um dia assombrarão. Não sei quem, mas ele jura que assombrarão. Tomara sobreviva, quero ser assombrado.

“Você está bem, Beto? Resistindo?”

“Bem? Bem mal, isso sim! Faz três dias que minha mulher me ignora”.

“Está sendo traído?” 

“Não sei se chega a isso, mas agora pareço não existir. Dói.”

“Celeste tem um caso? Não me diga. Vocês são vistos como o casal mais apaixonado, fiel. Loucos um pelo outro. Não estou entendendo.”

Quando digo grupo, refiro-me aos amigos próximos e parentes, não a esses grupos de redes sociais que têm milhares de seguidores e vivem azucrinando os outros.

“Pois é, a Celeste...”

“Conta, conta tudo. Deve ser coisa da sua cabeça. A Celeste? Vamos nos encontrar. Trocar figurinhas. Mas é sério?”

“Esqueceu que não podemos sair? Celeste, ah, que triste. Não liga mais para mim, me esquece, só tem olhos para o outro, vive o dia inteiro atrás dele.”

“Como sabe? Como descobriu? Olhando o celular? Coisa que não se deve fazer. O sujeito mandou flores, bilhetes, joias? Alguém viu e te abriu os olhos?”

“Nada disso, é tudo claro. O outro está aqui? Dentro de casa”

“O quê? Dentro de casa? Você viu? Sabe quem é? Falou com ele?”

“Vi. Não adianta falar com ele. É indiferente, fica na dele! Não responde, nada diz, nada comenta. Fica por aqui, vai para lá volta para cá, indiferente.”

“Minha Nossa Senhora Desatadora de Nós, parece Nelson Rodrigues. Não será efeito do tédio do confinamento? Não dá para peitá-lo? Dizer qual é a tua, bicho?

“Bicho? Gíria de nossa juventude. Nada adianta. Ele circula pela casa, ela vai atrás. Não adianta dizer uma palavra, nem ameaçá-lo. Ele não ouve, me desdenha, ignora, ele vira as costas.”

“Celeste surtou? Nessa quarentena, tem gente pirando, perdendo o controle, ficando paranoica. Eu mesmo tenho feito besteiras que me preocupam. Hoje, ao colocar a mesa para o almoço, minha tarefa doméstica (uma delas, claro), percebi que coloquei em lugar de garfo e faca, duas facas. Ontem saí perguntando: você viu meu relógio? Não encontro. Você não usa relógio, garantiu minha mulher. Não quer dizer celular? Era. Quantas vezes, com o celular, faço uma ligação e o meu fone fixo toca, estava ligando para mim mesmo. Pior foi no dia em que estava escrevendo anotações com uma BIC. Você conhece o poder das canetas, elas podem tudo. A carga acabou, apanhei um tinteiro – porque tenho caneta tinteiro também, sonho de adolescência. E me vi mergulhando a BIC no tinteiro. Não estou louco, divirto comigo mesmo. Se for preciso, tenho um amigo terapeuta, o Uchikusa, peço, ele me atende, bom sujeito. Qualquer dia escrevo a história dele.”

Ele me ouviu com paciência, sabe que preciso desabafar.

“Pois é a Celeste. Estou em casa, e ela some. Chamo, procuro e descubro, lá está ela junto dele.”

“A coisa é grave. Quem é esse homem? Foi de repente? 

“Faz três dias. Desde que ele chegou fui esquecido. Ela está encantada. Passa o dia para lá e para cá. Preocupa-se com ele, ri dele, ajuda-o com ternura. Não sei o que fazer.”

“Mas quem é esse homem?

“Não é homem, ela está apaixonada pelo robozinho que limpa a casa. Redondinho como se fosse a base de uma antiga enceradeira. Programado, solto, ele vai em frente, bate em um obstáculo, vira, tem sensores que o orientam, é até assustador, vira, vem, avança, parece inteligente, acho que pensa, é pacifico, obcecado, vê uma poeirinha vai lá. Até me deu até saudades daquele robô simpático da série Perdidos no Espaço – só idosos vão se lembrar – ou o R2-D2 do Guerra nas Estrelas. Limpa, e como limpa! Não fica um cisquinho. Penso o que vamos fazer com a diarista da limpeza quando tudo voltar ao normal. A Celeste feliz, disse: agora estou livre, há anos sonho com isso. E vai atrás, feliz, quando ele tenta entrar embaixo de um móvel e fica preso, ela corre e desenrosca. Claro que ela contou às amigas, mandou vídeos, deu uma epidemia, de compra. Todas encomendaram. Tem uma amiga dela, cheia da grana que pesquisa na Amazon, à procura de um robozão que cuide da casa inteira, limpe janelas, lave banheiro, cozinhe, lave roupa, faça as unhas, massageie os pés, atenda telefone, ligue a tevê, faça o café, faça massagem, pratique ioga, corra na esteira, faça compras de supermercado, dê conselhos, jogue na Mega Sena. E principalmente faça amor.” 

Pera?

 

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