Quando termina o ano?

Vida profissional é o único suicídio ético no Ocidente: 'Estou me matando de tanto trabalhar'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2017 | 02h00

Existe uma curiosa característica do calendário. O ano está prestes a terminar. Daqui a pouco será 2018. Porém, na prática, 2017 acabou há algumas semanas. Tente marcar qualquer coisa, um jantar, e ouvirá de todos: “Vamos deixar para o ano que vem...”. Fiz a experiência com um amigo particularmente indiferente às lides natalinas ou domésticas. “Vamos jantar?” “Não posso, estamos no fim de ano, você sabe.” “Não sei... você vai cozinhar, terá muitas compras, tem tarefas pendentes?” “Não, mas você sabe, fim de ano...” Não, definitivamente não sei.

Os romanos pensavam no deus Janus, com duas faces, cada uma olhando em direção oposta. Era uma entidade de início e fim, bipolar, zona de uma fronteira nebulosa entre a tarefa encerrada e a nova ainda não encetada. Parece que Janus já nos domina. Muito tarde para fazer qualquer coisa, muito cedo para iniciar as novas. Bem-vindos à zona cinza de 2018 ainda 2017.

Em parte, a algaravia estressante do fim de dezembro tem sentido. Distingamos matizes. Existem pessoas ocupadas e pessoas que se ocupam. Conheci alguém que parecia saído do romance Um Grande Garoto (Rocco, 2000), de Nick Hornby, pois se estafava a cada sábado: “Tenho de ver dois filmes hoje e ainda visitar uma amiga”. Uma aristocrata paulistana disse-me, certa feita: “Professor, hoje eu tenho massagem, a sua aula e ainda um chá no fim da tarde”. Que dia, pensei, que luta! Havia certa inveja na minha frase, ou melhor, uma cobiça por aquela agenda. Há muitas pessoas que se ocupam e gostam de se imaginar preenchidas por atividades com as quais ou sem as quais o mundo fica tal qual está. Mas o mundo da nobreza no dolce far niente que considerava o ócio uma arte sem culpa é um conceito em crise. Hoje em dia, mesmo as pessoas mais livres de tarefas fixas precisam falar dos seus muitos compromissos e atribuições. A confissão do ócio aristocrático recebe críticas, a prática nem tanto.

Há pessoas realmente atarefadas. São aquelas que, se não cumprirem suas funções, colocam em risco seu sustento e o de muitas pessoas. Mesmo entre essas, existe uma ênfase na descrição do dia tomado porque estar sobrecarregado de trabalho soa bem. Vida profissional é o único suicídio ético no Ocidente: “Estou me matando de tanto trabalhar!”.

Talvez a azáfama de fim de ano seja um teatro. Quem sabe seja porque nossa energia tenha acabado lá por outubro e não queremos mais um encontro social com amigo-secreto, mais uma happy hour e mais uma “festa da firma”. Acho que a proximidade de 2018 provoca uma cortina de fumaça sobre o que não queremos mais fazer. Podemos sempre dizer: vamos tentar no ano que vem, e, depois, adiamos para depois do Carnaval, ou quando tiver passado o imposto de renda ou depois das férias de julho ou... nunca, pois já estaremos perto de 2019. Volta o moto-perpétuo: quando estivermos perto de 2019, será melhor marcar para 2020, depois do carnaval...

Temos essa ansiedade de calendário. Uma aluna perguntou-me se haveria aula em uma quarta-feira da Semana Santa. Falei que sim, que era dia útil. Ela invocou a Semana Santa. Eu lembrei que o feriado era na Sexta-feira da Paixão e que nada havia na Bíblia registrado sobre o que Jesus teria feito na quarta-feira. Em outra ocasião, um aluno protestara: “Prova na sexta? Mas depois é carnaval!”. Bem, o feriado de carnaval é terça-feira da outra semana. Por que o anteciparíamos em tantos dias? No ensino médio, reclamavam se eu começasse alguma matéria nova faltando 15 minutos para o fim. As mochilas já estavam sobre as carteiras, tudo fechado e preparado para os cem metros rasos que separavam o fim da aula da rua e da consequente felicidade.

Talvez entre alunos esteja a fórmula do que ocorre com todos nós. Não queremos mais estar aqui, queremos estar em 2018. O problema é estar sempre no momento seguinte. Como contou meu amigo Clóvis de Barros Filho em palestra, no ensino fundamental queremos o médio e, chegando a ele, a faculdade. Alcançando o superior, anelamos pelo estágio e, durante sua vigência, torcemos pela efetivação. Terminado o ciclo de uma vida de trabalho, suspiramos (ou suspirávamos) pela aposentadoria, porque, como em todas as etapas anteriores, a felicidade estaria sempre à frente. Por fim, aposentados, fraquejando sinais vitais e já à beira da morte, vem o padre e diz: “Não se preocupe, ó meu filho, o bom mesmo vem agora!”.

Parece ser sábio estar no momento em que se está. O problema da antecipação é que, quando ela chega, uma parte da minha vida também foi escoada na ampulheta. Panta rei, dizia Heráclito. Tudo flui e, ao final, eu também passo. O fluxo incessante do rio me inclui, sou parte da água que nunca volta. A ansiedade por alguma data festiva é boa. Com sorte, o evento chegará. A festa de Natal, o ano-novo, o carnaval, meu aniversário: tudo pode chegar. O custo? Quando tiver chegado o momento, terei dias ou meses a menos para viver. O ano de 2017 ainda não terminou. Sua vida está aqui, no dia 20 de dezembro. O presente é o momento fabuloso no qual eu posso fazer alguma coisa. Talvez valha aceitar o convite de jantar com um bom amigo ainda este ano. Bom dia de hoje para todos nós! 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.