Quando som vira obra de arte

Por que Susan Philipsz levou o Prêmio Turner deste ano com suas instalações sonoras impactantes

Sarah Lyall, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2010 | 00h00

O Prêmio Turner, concedido anualmente a um artista britânico de 50 anos ou mais jovem, em geral é atribuído a alguém que leve a definição de arte a novas formas de provocação (ou de pedantismo e irritação, como queiram). Os tabloides da Grã-Bretanha adoram ridicularizar o prêmio - cerca de US$ 39 mil para o vencedor. Sobretudo porque, ao longo dos anos, as obras vencedoras apresentaram, entre outras coisas, animais empalhados e desmembrados (Damien Hirst); uma cabana para barcos desmontada e depois reconstruída (Simon Starling); e luzes que acendem e apagam (Martin Creed).

Susan Philipsz, que levou o prêmio de 2010, é a primeira ganhadora cujas obras consistem inteiramente de sons. O que significa que o público não as vê, embora uma delas, Lowlands (Planícies), esteja na Tate Modern Gallery. Nesta obra, a voz melancólica de Susan, cantando três variações de um antigo lamento escocês, é transmitida por três alto-falantes em uma sala pintada de um branco um tanto sujo, totalmente vazia. Com nada para olhar, em geral os visitantes ficam andando pela sala ou se amontoam num único banco solitário, ouvindo e esperando que alguma coisa aconteça.

A escolha de Philipsz foi aplaudida pelos exigentes críticos de arte de Londres, muitos dos quais afirmam que a música também conta como arte. "Imagino que as pessoas comentem que ela é apenas uma cantora, com o tipo de voz que você gostaria de ouvir num clube de música folk", escreveu o crítico Adrian Searle no Guardian. Mas acrescentou: "Seu sentido de lugar, espaço, memória e presença me lembra, estranhamente, o escultor Richard Serra na sua melhor fase. Sua arte nos faz pensar no nosso lugar no mundo e nos abre para nossos sentimentos."

A artista de Glasgow, de 45 anos, estudou escultura antes de decidir usar a voz suave em suas instalações. "Sempre gostei de cantar e comecei a refletir sobre o aspecto físico do canto - tomando consciência do espaço criado pela voz no corpo, e no modo como ela se projeta no espaço ao nosso redor."

Lamento. Planícies foi criado no começo do ano para o Festival Internacional de Artes Visuais de Glasgow, onde as gravações de Philipsz cantando Lowlands Away, um lamento sobre a namorada que se afogou e que assombra os sonhos do amante, foram tocadas num lugar muito sugestivo, de baixo de três pontes em Glasgow. Ao conceder o Turner, os juízes levaram em consideração esta obra e outra, Long Gone, na qual a interpretação da canção de Syd Barrett pela artista foi instalada por algum tempo na entrada do Museo de Arte Contemporanea de Vigo, na Espanha. Em outra instalação, Surround Me, seis gravações de seis canções melancólicas inglesas dos séculos 16 e 17, cantadas por Philipsz, serão tocadas até 2 de janeiro em ruelas e ruas solitárias do centro financeiro de Londres.

Suas obras devem ser realmente experimentadas em ambientes específicos - elas se tornam "neutras quando exibidas nos limites estreitos e estéreis da galeria de arte", disse Ben Luke no Evening Standard.

Alguns visitantes da Tate afirmaram que gostariam mais de Planícies se pudessem experimentá-la nas planícies de verdade. "Estava dizendo a meu marido que é de se supor que existe todo um trabalho por trás disso", contou Hannah Kruglanski, 65, que vinha dos EUA com o marido Arie, 71. "Aqui está muito fora de contexto. Há três alto-falantes, mas não há atmosfera." Arie Kruglanski observou: "Não compreendo isso, embora seja uma experiência auditiva muito interessante." Hannah acrescentou: "Acho que significa quebrar a demarcação entre música e arte, mas é difícil reagir emocionalmente."/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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