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Quando São Paulo parou

Foi em uma noite de segunda, maio de 2006, e a cidade frenética virou cidade-fantasma

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2017 | 02h00

São Paulo é a locomotiva da Nação. O jargão é quase centenário. A Pauliceia não para e sua música-símbolo, em vez de falar das belezas ou da história, destaca um risco de atraso para um amante apressado: não posso ficar nem mais um minuto com você... Sempre estamos correndo atrás de algum trem das 11 e, como disse certa feita o Macaco Simão, paulista tira férias para estressar o Brasil. Estamos na terra do trabalho e do movimento ou, ao menos, é assim que construímos nossa identidade.

 

Há 11 anos, em um mesmo mês de maio, São Paulo parou por completo. Foi uma série de ataques do PCC, alguns ônibus queimados e, em uma noite de segunda, 16 de maio de 2006, a cidade frenética virou cidade-fantasma. Houve boatos, mais medo do que perigo real, mas foram suficientes para que todos suspendêssemos atividades e ficássemos em casa, aguardando o Apocalipse que teima, como sempre, em nos escapar. 

Retrocedamos. A Grande Guerra se encerrava na Europa quando notícias de uma misteriosa epidemia começavam a invadir jornais do mundo todo. Em outubro de 1918, a chamada gripe espanhola fez sua estreia na capital bandeirante. No mês seguinte, a notificação oficial já passava de 7 mil casos por dia. O pânico tomou conta de todos. Ninguém mais ia a aglomerações como cinemas, teatros e jogos de futebol. Praças foram interditadas. O comércio baixou suas portas porque sumiram clientes e os funcionários tombavam doentes. Médicos abnegados como Arnaldo Vieira de Carvalho e Emílio Ribas faziam o possível e o impossível para deter o mal. Se alguém ousava pegar um bonde, levava um lenço com algum produto com álcool ao nariz e evitava qualquer contato com as outras pessoas. O pânico foi coletivo. O próprio candidato eleito para a Presidência, Rodrigues Alves, faleceu durante a pandemia. A cidade, que atingia meio milhão de habitantes, parou por completo. 

No fim do ano de 1918, o mal declinou. No mundo todo, discute-se o total de mortos entre 20 milhões e 40 milhões. Foi a virulenta praga da história, superando a Peste Negra medieval. 

Parte dos dados acima eu trouxe da leitura do texto de Roberto Pompeu de Toledo: A Capital da Vertigem, que dá continuidade aos volumes anteriores sobre os períodos colonial e imperial. Trata-se daquele livro que lamentamos terminar, em parte pela qualidade do texto e também pela primorosa pesquisa. Nós historiadores somos bons em arquivos e fontes, mas temos continentes a descobrir com jornalistas sobre como redigir de forma interessante sem perder o rigor. 

São Paulo havia parado em 2006 e 1918. Mas, há exatos cem anos, parou por motivos distintos de uma epidemia ou do crime organizado. Foi a greve geral de 1917. 

Sigo ainda a obra de Pompeu de Toledo. Era junho de 1917. Uma das fábricas-símbolo da cidade, o Cotonifício Crespi, na Rua dos Trilhos, informou aos funcionários, sem cuidados ou diplomacia e sem nenhuma compensação financeira, que os trabalhadores teriam de fazer trabalho extra noturno. Houve reação. Um setor da fábrica parou. 

As condições do operariado eram muito difíceis na República Velha. Jornadas extensas, salários baixíssimos, nenhum amparo legal significativo e códigos que poderiam incluir taxas para o funcionário ir ao banheiro. Como em quase todos os lugares, a Revolução Industrial em São Paulo iniciava seus passos baseada na exploração brutal dos trabalhadores. 

O Estado era governado há anos por um partido conservador, o PRP (Partido Republicano Paulista). Após perceberem que o movimento do Cotonifício estava se espalhando, o secretário da Justiça e Segurança Pública (Elói de Miranda Chaves) e o delegado-geral Tirso Martins decidiram chamar a Força Pública para reprimir a onda. Greve era coisa de vagabundos e de agitadores, bradavam os figurões do PRP e os jornais situacionistas. Quando a Força Pública invadiu as manifestações no Brás, houve disparos e um sapateiro de origem espanhola, de 21 anos, foi morto. O enterro de Martinez foi o estopim para que houvesse uma adesão maciça à greve. O governo prendia líderes. Era inútil. 

Estávamos no período áureo da influência anarquista sobre os trabalhadores. O Partido Comunista só seria fundado em 1922. Quase todos os líderes eram de origem estrangeira. Exceção ilustre, o brasileiro Edgard Leuenroth queria implantar o ideal libertário da extinção do Estado. Criou uma coleção pessoal sobre o movimento operário que, hoje, está sob os cuidados da Unicamp, em arquivo que consagra o nome do trabalhador gráfico nascido em Mogi Mirim.

 

São Paulo parou. Houve saques de farinha de trigo no Moinho Santista, na Mooca. Bondes que tentavam circular eram depredados. No Brás, os tiros ficaram intermitentes e, como escreve Pompeu de Toledo, “São Paulo foi dormir, naquele 12 de julho de 1917, com a sensação de que vivia não apenas uma greve, mas o prenúncio de uma revolução”.

Como sabemos, a revolução não chegou em 1917 a São Paulo. A Lei Adolfo Gordo foi usada para expulsar muitos estrangeiros. Houve acordos e alguns ganhos salariais. A relação com movimentos sociais e a questão trabalhista permaneceria difícil até a mudança na orientação política representada por Getúlio Vargas que, ao contrário da oligarquia da República Velha, supunha que era mais produtivo controlar o movimento operário com alguns benefícios e direitos do que enfrentá-lo permanentemente. Dúvida profética: qual será o motivo da próxima parada de São Paulo? Boa semana a todos!

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