Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Quando os opostos se atraem

Parceiros desde os anos 1960, Sergio Britto e Suely Franco se reencontram em Recordar É Viver

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

Personagens centrais da peça Recordar É Viver, Alberto e Ana são um desses casais que calam em algum lugar da memória. Como se você já os tivesse visto antes, como se carregassem mesmo algo de arquetípico. Em outros tempos, foram apaixonadíssimos. Hoje, aquele ímpeto inicial se amainou. Ficaram um tanto distantes e um tanto cegos um para o outro. Transformaram a troca de ofensas e as mágoas recíprocas em rotina.

Fora do palco, o par que Sergio Britto, 87 anos, e Suely Franco, 71, interpretam é bastante diferente desse da ficção. Os atores, que protagonizam a montagem que estreia hoje, no Sesc Consolação, nunca foram casados na vida real. Mas exibem personalidades que se complementam naturalmente, como apregoam os melhores manuais românticos: Ele, mais circunspecto. Cioso das palavras. Ela, solar. Exageradamente sincera e espontânea.

Hospedada em um hotel no centro de São Paulo, a dupla recebeu a reportagem para uma entrevista sobre o novo espetáculo. Mas, em meio a um desses temporais de fim de tarde, a conversa logo descambou para a revisão de uma vida inteira. Em verdade, de duas vidas que vieram se esbarrando ao longo das décadas. "Quantas vezes já trabalhamos juntos? Ah, não faço a menor ideia. Você sabe, Sergio?", indaga a atriz.

Em 2007, contracenaram em Outono, Inverno. Suely veio substituir Laura Cardoso e acabou ficando até o fim da temporada. Ele também a dirigiu em espetáculos, como Cafona, Sim, e Daí?, em 1997, e Ai, Ai, Brasil, uma grandiosa montagem de 2000, que fazia referência aos 500 anos do Descobrimento.

Antes de prosseguir na retrospectiva, porém, há que se contar que a atriz fez sua estreia profissional no teatro ao lado de Britto, em O Beijo no Asfalto (1961). "Foi ele quem me fez", ela afirma, entre risos.

"Suely morava na Urca - onde vive até hoje, aliás - e ia com a mãe até a TV Tupi", conta o ator. À época, fazia propagandas e participações nas novelas. E foi a atriz Zilka Salaberry que se encarregou de apresentar a jovem à trupe que se preparava para ensaiar o texto de Nelson Rodrigues. Uma produção do Teatro dos Sete - grupo que é cria direta do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC -, a montagem trazia um elenco de notáveis: Francisco Cuoco, Ítalo Rossi, Fernanda Montenegro. Mas não escapou da reprovação de uma plateia escandalizada.

Expostas em cena, as psicopatias e taras do subúrbio carioca chocaram grande parte do público "Pisei no palco debaixo de vaias", recorda a atriz. "Estava quase chorando. O Mário Lago, mais experiente, só me olhava e dizia: "Calma, não fala agora. Espera um pouco." Foi um sufoco. Mas, no final, deu certo."

Em seguida, trabalharam no Grande Teatro, o programa que Sergio produziu e dirigiu na TV Tupi. "Lá, fizemos muitas coisas juntos. Nem imagino quantas vezes interpretei namoradas, amantes e mulheres do Sergio Britto. Era uma peça diferente por semana, durante 12 anos. Faz a conta de quanto dá", ela desafia. "Não exagera", ele retruca, como um bom marido implicante. "Foram nove anos. Fizemos, no total, 386 peças."

Montaram as grandes obras da literatura dramática universal. Especialmente, os textos do teatro realista: Henrik Ibsen, August Strindberg, Bernard Shaw. Em transmissões ao vivo - num tempo em que ainda não havia videoteipe - não faltavam tropeços e falhas técnicas. Episódios que parecem ser os prediletos de ambos. "Não esqueço uma peça que fazíamos, chamava-se 102 Mulheres", comenta o ator. "Ela tinha que me dar um tiro de pólvora seca. O truque era apontar a arma um pouco para o lado." Suely lembra, contudo, que, na hora da emoção, errou o alvo. "Atirei com tudo. Quase mato o Sergio. Arranquei a sobrancelha dele inteira."

Encontro. Depois desse período, os dois afastaram-se. Sergio Britto soube converter o brilho como ator de composição em talento incomum para desbravar os novos terrenos do teatro contemporâneo. Passeou, sem sustos, de Georges Feydeau a Samuel Beckett, de Pirandello a Harold Pinter.

Do outro lado da trincheira, Suely sempre demonstrou pendor para as comédias e o teatro musicado. Conquistou reconhecimento pela graça que emprestou às personagens de Leilah Assumpção. E nova consagração em 1998, pela atuação como Linda Batista, em Somos Irmãs, musical de Sandra Louzada.

Nessa perspectiva, não deixa de ser curioso que se reencontrem justamente em uma peça que trate de lembranças e diferenças, como Recordar É Viver. Algum lugar onde, de fato, as dissonâncias se complementam, os opostos se atraem.

RECORDAR É VIVER

Sesc Consolação. Teatro.

Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 32. Até 27/2.

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