Carlos Canhameiro/Divulgação
Carlos Canhameiro/Divulgação

Quando o teatro (in) verte os sentidos

Cia Les Commediens Tropicales mistura teatro, dança, música e artes gráficas

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

31 de março de 2011 | 13h28

Até que ponto o público está predisposto à contemplação? É uma pergunta que a Cia. Les Commediens Tropicales tentará responder a partir de sábado, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), na capital do Estado, com o espetáculo performático "(ver [ ] ter)". Inspirados não apenas pelos grafites, mas também pelas intervenções no espaço público do artista-secreto-britânico Banksy, os integrantes da companhia e seus convidados especiais povoarão as áreas externas do CCSP com cenas desconexas, sem falas, (in) vertendo o que há de sentido no teatro, na dança, na música e nas artes gráficas. "Não queremos tratar como uma peça de teatro, porque as pessoas ficarão decepcionadas", avisa Carlos Canhameiro, um dos fundadores da Cia. "A ideia é que o público seja invadido por essas cenas."

O paradigma dessa gente indigesta está em (des) construção. Canhameiro lembra que essa performance não tem relação direta com a técnica do chamado "teatro físico", que pode ou não exigir do ator o uso da voz, ou focar na imensurável expressividade corporal, como no caso da mímica dramática. "Não chega a ser teatro físico, ainda mais porque se pressupõe uma apresentação na sala de espetáculo. Estamos em busca de romper com o paradigma, com uma intervenção, com o tempo presente, bebendo em várias fontes, como a dança e a música, mas não necessariamente com a técnica do teatro físico."

Além da produção, Canhameiro vai atuar ao lado dos colegas da cia: Daniel Gonzalez, Jonas Golfeto, Michele Navarro, Paula Mirhan, Tetembua Dandara e Weber Fonseca. Além deles, estarão na área as convidadas Georgette Fadel, Tica Lemos, Andréia Yonashiro e os integrantes do Coletivo Bruto. Os músicos Rui Barossi (contrabaixo acústico) e Claudio Faria (trompete) dividem a trilha musical, que contará ainda com reproduções mecânicas (digitais) de músicas que vão de Xuxa a Maria Callas. Cenas, danças, músicas, corpos e sentidos em desconstrução estarão em choque da rampa do metrô à biblioteca do CCSP, com o objetivo de invadir o espaço do público habitual do lugar.

A inspiração vital desse não-espetáculo vem do fenômeno Bansky, esse provocador que ficou famoso com sua arte de pichar paredes usando a técnica do estêncil, que é como uma fôrma que ajuda o artista "emporcalhar" o espaço urbano do "ordeiro" Reino Unido. As cenas são até engraçadas e, por isso mesmo, perigosas.

Em seus grafites é possível ver, por exemplo, Ronald McDonald e Mickey Mouse andando de mãos dadas à Phan Thi Kim Phuc, a então garotinha que ficou imortalizada em uma foto, na qual ela corre nua, fugindo de um ataque de armas químicas durante a Guerra do Vietnã. Ou um balão do mesmo restaurante do referido palhaço levando para os céus uma criança.

Mas ele foi além: fez intervenções nos muros que separam Israel e a Palestina; levou até a Disney - o paraíso do esquecimento como forma de construção da identidade nacional, já dizia Renato Ortiz - um prisioneiro inflável das masmorras de Guantánamo. Chegou até Hollywood, com "Exit Through the Gift Shop" que, assim como "Lixo Extraordinário", perdeu para "Trabalho Interno" o Oscar de melhor documentário. E não é que até surgiu um graffiti de uma garotinha birrenta segurando o bendito Oscar, que gerou polêmica...

E se a técnica do estêncil é, assim como a prensa e os transistores, uma técnica de reprodução, ao se "mundializar", não daria Bansky um nó em Walter Benjamin, que se debruçava sobre a perda da "aura" da obra de arte em meio às inesgotáveis formas capazes de reproduzi-la? Ou ele cria sentidos se apropriado do fim da "aura"? Ou os seres humanos também são prensa e transistores?

A identidade do artista é incerta e, como lembra Canhameiro, ele pode ser, na verdade, vários. "Não sabemos quem ele é. E não sabemos quantos são Banksy, o que é representativo. Não quisemos fazer uma obra sobre ele. Mas é com essa atitude que ele tem com o espaço público. A apresentação não tem um cunho político, panfletário, mas o conceito ''ver'' e ''ter'', o ''verter''. Que as pessoas vejam e questionem."

(ver [ ] ter) - Estreia 02 de abril, sábado, às 17h30. Sábados, às 17h30 e domingos, às 19h Temporada até 29 de maio. Direção coletiva da Cia. Les Commediens Tropicales Local: Áreas externas do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, São Paulo - SP). Gratis

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