Quando o sonho de menina se torna realidade

Aos 16 anos, bailarina brasileira é aprovada na Academia Vaganova, instituição que formou Nijinsky e Baryshnikov

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h06

Rubem Braga dizia que meninos são capazes de amores teimosos. "Amores burros e compridos", que não tocam o coração dos adultos. Foi aos quatro anos que Virgínia Mazzoco, conterrânea do cronista capixaba, começou a alimentar sua devoção pela dança. Aos 12, saiu de Vila Velha, no Espírito Santo, para estudar em Joinville, na Escola Bolshoi. E, agora, aos 16, prepara as malas em direção à Rússia. Foi selecionada pela Academia Vaganova, uma das mais importantes escolas de balé clássico do mundo.

Não é pequeno o feito de Virgínia. Sua teimosia levou-a a sonhar alto. "Ficava vendo vídeos no YouTube", ela lembra. "E pensando que queria dançar como aqueles que mais admiro." Mikhail Baryshnikov, Anna Pavlova, Nijinsky, Diana Visheneva. Todos ícones da dança. E, coincidentemente, todos formados pela Vaganova. "Existe um estilo muito próprio da escola que é possível reconhecer na técnica de cada um deles", acredita Virgínia.

Mas não parecia fácil chegar perto desse panteão. Há dez anos nenhum brasileiro era aprovado por lá. Ao longo dos seus275 anos de história, a instituição só registra a passagem de duas bailarinas do País. Mas por que não tentar?

Virgínia tentou cedo. Com 14 anos, se inscreveu em um teste e... passou. "Só que tive que esperar fazer 16 para poder me matricular. Eles prometeram guardar a vaga para mim", conta. Para quem vive na Rússia, o curso regular dura nove anos. E as crianças começam a frequentá-lo entre os dez e os 12 anos.

Candidatos internacionais só são aceitos para as últimas quatro séries. E, para conseguir acompanhar o ritmo das aulas, precisam comprovar seu conhecimento técnico, além de já estarem familiarizadas com o método Vaganova: prática pedagógica concebida pela bailarina Agrippina Vaganova (1879- 1951), que ainda é considerada referência no ensino de balé. "Comecei a estudar esse método aqui na Escola do Bolshoi em Joinville e logo me interessei por ele."

A mudança para outro país não assusta Virgínia. Quando foi morar em Joinville, seus pais, que são fotógrafos, foram com ela. "Mas, por causa do trabalho, eles assumiram que era melhor voltar. Eu fiquei. Hoje, moro em uma casa social, com outras crianças."

Do outro lado do mundo. Para acompanhar as aulas do outro lado do oceano, já começou a estudar russo. "Não é tão difícil. Ainda não falo bem, mas já consigo entender bastante", conta. "Além disso, os nomes dos passos de dança são os mesmos, o que facilita bastante."

Atualmente, divide o seu dia entre a escola regular e o estudo da dança: lições de teoria, repertório mundial, técnica específica de ponta e atuação. Mas, quando desembarcar em São Petersburgo, em agosto, essa rotina deve mudar. Precisará se dedicar ao balé em tempo integral. "É o que eu quero para minha vida. Me formar como bailarina e um dia ingressar em uma grande companhia internacional", diz.

A própria Academia Vaganova tem um conceituado corpo de baile que incorpora parte dos estudantes. Só que, estando lá, as possibilidades não param por aí. Podem incluir qualquer grande balé da Rússia ou da Europa.

Ao longo da conversa, Virgínia não faz menção aos recentes escândalos envolvendo o Balé Bolshoi russo, cujo diretor foi atacado com ácido por conta de disputas entre bailarinos. Parece, porém, estar ciente do ambiente de competição e vaidade que possivelmente encontrará pela frente. E, espontaneamente, ressalva: "Sonho conseguir encontrar uma companhia que dance bastante repertório. Amo quase todos os balés. Mas quero ter uma vida também, e não viver só para dançar."

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