Quando o público é que manda

Há um boteco em Olinda chamado Licoteria Noctívagos, em que o cliente se senta ao balcão para pedir uma dose de licor de gengibre, jenipapo ou cajá. Logo, nota-se que o novo disco da diva do soul Sharon Jones, querida do circuito indie internacional faz a moderna trilha do cubículo, e que o dono do lugar, o senhor Fernando Guimarães, discute o cinema de David Fincher, Almodóvar e Sam Mendes com a mesma intensidade com que contraria a comercialização de suas bebidas.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 00h00

É uma cena comum em Olinda, emblemática das conversas que se costuma ter com os tipos sadiamente intelectuais que povoam a cidade, muitos deles vestidos com as clássicas boinas e camisas de estampa, uniforme popularizado nos idos do mangue beat. A mistura de artistas, músicos e poetas olindenses com uma multidão de jovens estudantes do Recife e instrumentistas interessados nos workshops do festival deu o tom da plateia da Mimo, formando um público diversificado, curioso o bastante para ouvir por uma hora um certo gênio do jazz não tão conhecido, e espontâneo o bastante para se atirar no frevo ao comando da Orquestra Contemporânea de Olinda. Esta plateia preciosa poderia ter sido recompensada de melhor forma com uma programação de fibra artística mais nutritiva.

Por exemplo, a diferença entre as execuções incendiárias do quarteto de cordas Hugo Wolf e muitos dos nomes de jazz do festival, na grande maioria praticantes de improvisos burocráticos, foi gritante. Este desequilíbrio seria facilmente suprido com nomes da boa safra de rock instrumental do País, novos nomes do jazz e do rock americano e até as ótimas crias do próprio Recife.

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