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Quando o Jazz é sagrado

O lendário Yusef Lateef, aos 90 anos, vem pela primeira vez ao Brasil e, em entrevista, diz que música deve buscar significado do presente

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

Aos 90 anos, desembarca em São Paulo, no Sesc Pompeia, no próximo dia 12, um gigante do jazz, o sax tenor e flautista Yusef Lateef, nascido William Emanuel Huddleston em 1920 em Chattanooga, Tennessee. Ele integrou os grupos de Dizzy Gillespie, Charles Mingus e o Cannonball Adderley Sextet. É a primeira vez de Lateef no Brasil.

A exemplo de Ornette Coleman (80 anos), Sonny Rollins (80 anos) e Dave Brubeck (90 anos), ele é um dos remanescentes de uma era de ouro do jazz. Poucas coisas são tão referenciais no gênero quanto o estilo macio de Lateef na música Theme from Spartacus. Qualquer coisa que se ouça dele entre 1940 e 1970 é imediatamente reconhecível - é a própria expressão do estilo no jazz. Mas ninguém espere que ele chegue ao Sesc Pompeia tocando Take the "A" Train. "Eu não toco mais standards", disse Lateef ao Estado, falando por telefone, de Nova York.

Compositor, escritor, artista visual, filósofo, músico, o dr. Lateef foi agraciado, no ano passado, com o título de American Jazz Master pelo National Endowment for the Arts, o Fundo Nacional de Cultura dos Estados Unidos. "Yusef Lateef tem sido uma fonte de inspiração para o mundo da música durante muitos anos. Um muçulmano devoto, Yusef é adorado por cristãos, judeus, budistas, hindus e as pessoas de todo tipo ao redor do mundo. Ele tem tido um enorme impacto espiritual em todos nós e sempre criou grande música", disse dele Sonny Rollins.

"Não toco mais standards porque a supremacia dos standards fez com que a evolução ficasse em segundo plano, a música se tornou muito típica", afirmou o artista, que fará seu show em São Paulo com Rob Mazurek (trompete), Jason Adasiewicz (vibrafone), William Parker (baixo), Thomas Rohrer (rabeca) e Maurício Takara (percussão).

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Segundo Lateef, o que o mantém em atividade aos 90 anos é a curiosidade existencial. "O que eu procuro é mergulhar dentro daquilo que sou", disse. "O que me mantém ativo é a busca do significado do presente." Ele começou aos 18 anos - ou seja, já está há mais de 70 anos na ativa. "Da minha juventude, eu me lembro do prazer. Tocar com pessoas como Roy Eldridge e Dizzy Gillespie foi puro prazer. Uma sensação maravilhosa."

Muitos críticos dizem que Yusef Lateef foi o inventor da world music, ao lançar, em 1961, o disco Eastern Sounds, em que misturava jazz com sons do Oriente - mas ele dá uma gargalhada quando ouve isso. "A sensação de ir em direção à experimentação revelou-se, no final, muito eficiente", diz apenas.

Não se surpreende com a notícia de que o show de Ornette Coleman no Sesc tenha sido um dos mais bem avaliados de 2010. "Imagino que hoje algumas plateias conseguem apreciar a revolução. E talvez eles não apreciassem antes porque não entendiam. Se você entende a evolução, você passa a aceitá-la."

Lateef não aponta nenhum novo nome do jazz como destaque, em especial. "Bem, eu não desgosto de ninguém. Todos estão tentando produzir algo belo, com significado", diz. O jazzista viveu e lecionou na Nigéria durante quatro anos, como pesquisador sênior, para uma tese sobre a flauta africana. Na banda de Cannonball Adderley, ouviu muito a música brasileira - Adderley era fã.

"Acho que cada país tem algo de único a oferecer em termos de música e arte. Mesmo sem entender bem, eu tentei", conta. Está ansioso para fazer seu primeiro show no Brasil. "Acredito na paz, no amor, no respeito e na humanidade. E no amor de Deus. Tento fazer o bem e acredito no amor do Criador. Quero que as pessoas venham para ouvir, e que possam sentir a emoção da expressão musical."

COM QUEM ELE TOCOU

Charles Mingus

Cannonball Adderley

Miles Davis

Dizzy Gillespie

Milt Jackson

Tommy Flanagan

Barry Harris

Paul Chambers

Donald Byrd

Hank Jones

Thad Jones

Elvin Jones

Kenny Burrell

Lucky Thompson

Matthew Rucker

Lucky Millender

TOWARDS THE UNKNOWN

Gravadora: Meta Records

Preço: US$ 30 (em média)

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