Mary Brinkmeyer
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Quando o escritor é refém de um livro

Blake Bailey, que prepara biografia de Roth, fala de seu trabalho sobre Charles Jackson, o romancista de Farrapo Humano

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 22h00

Os leitores de ficção que nunca ouviram falar de Charles Jackson, podem apontar o dedo acusatório para o diretor Billy Wilder. Quando o best-seller The Lost Weekend, de 1944, foi transformado no clássico Farrapo Humano, com Ray Milland no papel do alcoólatra Don Birnam, o romancista Charles Jackson conheceu não só a fama como também seu preço em Hollywood. Adulado e admirado, com um contrato de roteirista, o temporariamente sóbrio escritor nunca se recuperou do sucesso do filme. A recém-lançada biografia de Jackson, Farther & Wilder: The Lost Weekends and Literary Dreams of Charles Jackson, de Blake Bailey, é uma chance para reexaminar a importância de The Lost Weekend, em nova edição da Vintage, junto com a melhor coleção de contos do autor, The Sunny Side. The Lost Weekend mudou a percepção sobre o alcoolismo que, até então, era considerado uma falha moral. O romance, não a versão açucarada do filme, é muito mais autobiográfico do que o atormentado alcoólatra e bissexual Jackson admitira. Bailey faz justiça a Jackson ao lembrar que ele foi também autor do primeiro romance americano em que o homossexualismo do protagonista é central na trama - The Fall of Valor, de 1946. Jackson morreu aos 65 anos de uma overdose de barbitúricos no lendário Hotel Chelsea de Manhattan, em 1968. A seguir, a entrevista exclusiva de Blake Bailey ao Sabático.

Como foi a chegada de Charles Jackson a Hollywood?

Ele era o homem mais popular na cidade. Viam aquele autor de um romance autobiográfico sobre um alcoólatra que, além de estar sóbrio, era um sujeito extremamente agradável. Alcoólatras de todos os tipos queriam conhecê-lo. Spencer Tracy o seguia com uma devoção canina pensando: este homem tem um segredo. Como ele conseguiu ficar sóbrio? Pensaram que ele namorava Judy Garland. Thomas Mann e Jackson se tornaram próximos. Mas Hollywood passa a se interessar pela próxima grande novidade e veio o desencanto.

Por que o senhor conclui que o sucesso do filme Farrapo Humano foi negativo para o autor do romance que o inspirou?

O filme ganhou os principais Oscars e é um clássico, mas também encobriu o valor do livro. O romance, considerado uma obra-prima pelo New York Times, vendeu 500 mil cópias. Mas há mais espectadores de cinema no mundo do que leitores de ficção literária. Nada fez mais do que abolir o romance da paisagem cultural do que o filme. Jackson detestou o final feliz da primeira versão de Billy Wilder: A namorada do Don o convence a não se suicidar e a começar a escrever seu romance. O primeiro final além de piegas, sugeria que ele havia curado o próprio alcoolismo escrevendo The Lost Weekend. O final usado foi apenas um pouco menos estúpido. O desencanto começou aí. Depois, o nome de Jackson não foi mencionado nem uma só vez na cerimônia dos Oscars.

O senhor diz que o tema principal de Jackson em The Lost Weekend, mais do que o alcoolismo, é o próprio autor.

Ele estava interessado nos seus pensamentos. Apresentava não a vida interior do alcoólatra, mas do narcisista, de alguém que não consegue escapar da prisão de si mesmo. E por ser talentoso, e estranhamente objetivo sobre o próprio narcisismo, escrevia sobre como era ser assim, com clareza e humor.

Faz diferença contar a vida de um grande escritor e a de um autor conhecido apenas por um romance?

A diferença é que não há engajamento crítico o bastante com a obra. Mas é importante lembrar que Charles Jackson teve impacto cultural considerável no seu tempo e que ele mudou a percepção sobre o alcoolismo. A revista Life atribuiu a ele o reconhecimento do alcoolismo, pela Associação Médica Americana, como doença que podia ser tratada. Então, mesmo tendo escrito só um grande romance, ele é um arquétipo. Viveu uma vida de classe média como um gay no closet. Jackson cresceu numa cidade provinciana do Norte do Estado de Nova York onde ser gay era o equivalente a ser um assassino.

Edmund Wilson, escrevendo sobre The Fall of Valor, diz que Charles Jackson removeu a homossexualidade do lugar privilegiado onde tinha sido colocada por Gide e Proust.

O que Wilson quis dizer é que tanto a homossexualidade como a vida sexual eram tratadas pelos dois autores como uma indulgência da classe privilegiada. Em The Fall of Valor, o protagonista precisa se arriscar. No fim do romance, ele tenta abraçar um fuzileiro naval e é espancado com uma barra de ferro.

Jackson esperava que The Lost Weekend seria superado pela "saga de Birnam", cujo primeiro volume, Farther & Wilder, ele deixou incompleto. Mas como o senhor diz, ele foi, como Malcolm Lowry, de À Sombra de Um Vulcão, o escritor de um romance só.

Por um lado Jackson foi brilhante e realizou seu talento com The Lost Weekend e The Sunnier Side, a excelente coleção de contos também relançada agora. Mas ele não tinha talento para produzir uma saga proustiana de vários volumes. Seus sentidos estavam afetados a maior parte do tempo pela dependência de pílulas. Mas repito: apesar de não ser nenhum Proust, ele escreveu alguns livros importantes e um clássico. Nada mal.

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