QUANDO O CRIME É CASTIGO

Grupo de Brasília traz a São Paulo um espetáculo sobre a violência e arrependimento

O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2013 | 02h11

Crítica: Jefferson Del Rios

Cru, da Cia Plágio de Teatro, de Brasília, gira em torno da pistolagem. Assassinatos por encomenda. Chaga social difundida em todo país e particularmente intensa, por questões de terra, no centro-norte do Brasil. Serve também para casos pessoais de disputas amorosas, dívidas, revide de agressões e, atualissimamente, droga. Ao matador não faz diferença. São conhecidos alguns pontos desses homens em Goiás e Pará.

A peça de Alexandre Ribondi flagra exatamente o encontro do contratante e do assassino em um botequim em algum lugar perdido, mas não longe de Brasília, dado revelador. O país real está ao lado. O enredo tem um tom soturno adicional ao colocar em confronto um evangélico, um travesti e o pistoleiro. Entre eles tudo é cru, da conversa à carne servida em fatias. Em algum momento, a narrativa toma outro rumo com contornos passionais e místicos.

O crime que o forasteiro com a Bíblia na mão quer encomendar não é foi em Itupiranga, Pará onde, em 2005, um jagunço, por R$ 10 mil, abateu com cinco tiros o líder do sindicato rural da cidade, Domingos Santos da Silva. O estranho de Cru também não pretende uma chacina como a de Doverlândia, sul de Goiás, quando sete pessoas foram degoladas em uma fazenda (o detalhe é incômodo, mas tente o leitor saber como é uma degola). O vingador bíblico quer sangue por um motivo íntimo.

O momento em que Ribondi sai da esfera sociopolítica, embora ela esteja subjacente aos fatos. Seu teatro e seu personagem tentam um rito de expiação. O autor, que se declarou motivado pelo assassinato de um sobrinho, quer expor o enigma da violência, como diz, "plantada dentro da alma". O que é uma alma - um ser humano - se tornar violento além da injustiça social.

A montagem, acrescenta Ribondi, "não trata de questões socioeconômicas". Sua indagação é relevante numa dramaturgia que tenta escapar dos clichês que ninguém considera: "todos nós, reféns da violência e do medo urbano", "a insegurança, a incerteza, as balas perdidas, a banalização da vida, a vingança e o ódio social".

Cacoete retórico de programas de teatro. O dramaturgo está além do palavrório queixoso. O estilo é seco no melhor sentido e a peça tem impacto embora se feche demais no mistério do que realmente aconteceu com aquela gente. Ribondi traz algo mundo rural e primitivo com obscura metafísica e retorcidas visões do destino. Há um precedente famoso, todo Guimarães Rosa, e o esquecido romance Memórias de Lázaro, de Adonias Filho. A montagem tem uma verdade áspera e ameaçadora ainda que lhe falte equilíbrio entre o realismo e as meias palavras, o subtexto cifrado que indicam sombras de religião, sexo e maldade sem cura.

O cenário dos acontecimentos está carregado de excessos. Embora bem interpretado por Vinícius Ferreira, parece inverossímil um travesti explícito (maquiagem, bijuteria etc.) no lugar em que a intolerância é a regra. O pistoleiro de Sérgio Sartorio ganharia nitidez sem a verbalização engrolada para indicar deficiência psicofísica ou embriagues. Sartori poderia, quem sabe, ser melhor em composição menos esquemática. O enigma ou transcendência da trama está - em um resumo - no tipo físico, voz e expressão gestual de Chico Santana, o comprador de vingança.

Poderia haver menos gritos em determinadas sequências, mas o conjunto é sólido. O espetáculo traz mistério existencial e psicológico e, sim, a denúncia ao fazer menção indireta às mortes do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, no Acre (1988) e da religiosa Dorothy Stang, no Pará (2005). Ativista pelos direitos dos pequenos agricultores, ao receber seis tiros tinha só uma bíblia na mão. A direção conjunta de Rondi e Sartorio é concisa no cenário e na iluminação, e dispensa efeitos sonoros. Coerente com o título. Apesar do nome provavelmente irônico do grupo, Cru é - sem plágio - a materialização cênica de uma frase de Grande Sertão: Veredas: Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

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