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Quando o autor é fã de carteirinha

O escritor Michael White age como um torcedor de futebol diante de críticas a J. R. R. Tolkien, o objeto de seu livro

BRAULIO TAVARES, ESPECIAL PARA O ESTADO, BRAULIO TAVARES É ESCRITOR, COMPOSITOR, MANTÉM O BLOG MUNDOFANTASMO.BLOGSPOT.COM, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h14

J. R. R. Tolkien - O Senhor da Fantasia, de Michael White, não supera a biografia autorizada de Humphrey Carpenter, de 1977, embora tenha a vantagem de cobrir os anos mais recentes do fenômeno Tolkien, inclusive sua adaptação para o cinema pelo diretor Peter Jackson.

Tolkien foi um escritor relativamente fácil de biografar, pois viveu a vida inteira nos arredores de Oxford e cidades próximas, se descontarmos os seus anos de infância na África do Sul. Um professor pacato, focalizado na vida acadêmica e no trabalho literário das horas vagas. Sua vida é bem documentada, os arquivos preservados.

Michael White é autor de romances e biografias, entre elas vidas de Isaac Newton, Leonardo da Vinci, Maquiavel, Isaac Asimov, Galileu, etc. Seu website o descreve como a única pessoa no mundo que já apareceu em três listas dos "dez mais": ficção, não ficção e música, pois ele já fez parte do grupo The Thompson Twins.

A biografia O Senhor da Fantasia pode ser uma porta de entrada para a vida e a obra de Tolkien, reconstituindo de maneira correta a linha cronológica de sua vida pessoal e profissional, além do processo de criação de sua obra literária. O tom com que é escrita, no entanto, é visivelmente o de um fã, de um admirador fervoroso, por mais que o autor procure manter distância dos fãs mais hardcore. Na Introdução, ele afirma não pertencer ao grupo para quem a mais leve crítica ao autor é um sacrilégio.

Gêneros populares como fantasia e ficção científica (FC) parecem favorecer o cultivo dessa mentalidade, inclusive pelo uso corrente do termo "fandom" para designar o conjunto dos fãs, o universo cultural em que atuam. O fã, muitas vezes, deixa de se parecer com um leitor e se comporta como torcedor de futebol ou um militante político. Torna-se membro de um culto, e qualquer crítica dirigida ao objeto de adoração provoca reação imediata e veemente. (Se esse jornal receber cartas ou postagens com queixas ao que digo, será uma prova disso.)

No último capítulo do seu livro A Lenda Vive, Michael White faz um apanhado das críticas positivas e negativas que The Lord of the Rings recebeu no lançamento, na década de 1950. Mas o modo como toma a defesa do autor não é uma atitude de biógrafo, e sim de fã. Ele se refere, por exemplo, à crítica de Edmund Wilson (Oo, Those Awful Orcs, 1956), que chamou o livro de Tolkien de "bobagem" e "lixo juvenil". E diz: "A falta de sutileza nas observações de homens como Edmund Wilson são intrigantes. Eles podem ter sido estimulados pela inveja, mas também é provável que 'não tenham entendido'". E arremata, referindo-se a Wilson: "Quem o lê agora?".

Obras como O Castelo de Axel (1931) ou Rumo à Estação Finlândia (1940) praticamente nunca saíram de catálogo e são traduzidas no mundo inteiro. Wilson é tão lido hoje quanto em sua época. Era um crítico acerbo e voluntarioso; no "fandom" do romance policial ele é também execrado por ter bombardeado o gênero em vários artigos, especialmente Quem Liga para Quem Terá Assassinado Roger Ackroyd? (1945).

As comunidades de fãs dos gêneros mais populares (FC, policial, fantasia, etc.) costumam travar uma luta ressentida contra o chamado mainstream literário. Queixam-se de preconceito, esnobismo e desinformação por parte dos críticos oficiais (entre os quais Wilson está incluído), mas isso os leva muitas vezes a considerar que todas as críticas vindas dessa direção são infundadas e injustas. Muitos defeitos apontados por Wilson são reais: Tolkien tem dificuldade para criar personagens femininos, não sabe lidar com temas sexuais, tem azedume diante de tudo que possa ser tido como "moderno".

A crítica não diminui o valor imenso da obra de Tolkien nem de Wilson. Fantasia e mainstream são vertentes literárias convergentes. Vão se fundir mais à frente, com a transformação natural das mentalidades e dos estilos. A aplicada biografia escrita por Michael White poderia ter ajudado esse processo, em vez de contribuir para a sobrevivência da irritante rivalidade, quase futebolística, dentro da literatura.

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