Quando o afeto fala baixinho

Uma praça, uma frequentadora habitual e a moradora de rua que se instalou ali. Em carta a Tom Jobim, do porto do Havre, França, em 1964, Vinicius de Morais escreveu: "Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo. São 10 horas da noite, e não se vê viv'alma". O desabafo resume a peça Chorinho, mas também cabem nela todo o sentimento do mundo de Drummond e de Fauzi Arap, autor e diretor da peça. Um sentimento voltado às pessoas em sua essência, sem as bandeiras que explicam a vida só como fenômeno ideológico e coletivo. Fauzi escreve sobre os que não estão confortáveis na existência e a maneira como criam soluções para sobreviver.

O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h09

Na praça, a mulher que chega todos os dias preenche seu tempo vazio. A outra, que teria deixado voluntariamente a família, acredita ter uma relação pessoal com o lugar, afinidade secreta com as plantas. São duas pontas do desamparo feminino. Há o choque inicial da posição defensiva da frequentadora por lazer, que tem casa e recurso financeiro, e daquela que vive a céu aberto. Todo um jogo de lenta aproximação será construído a partir de recusas enfáticas e afirmações sonhadoras, pequenas certezas e fantasias. A peça segue uma vertente do confronto de opostos que tem precedentes conhecidos nas artes em geral. Nem todos acabam bem. Em teatro, há os casos brasileiros conhecidos de Plínio Marcos em Dois Perdidos na Noite Suja e O Assalto, de José Vicente de Paula, e mais recentemente a contundente dramaturgia de Aimar Labaki expressa em A Boa. No exterior, o norte-americano Edward Albee com Estória do Zoológico.

Todas com desenlace violento. Fauzi Arap, no entanto, vai por outro caminho, mesmo que de hipotética ou frágil concretude, mas sempre como aposta no sentido maior que a maltratada palavra Humanidade carrega. Sentimental sem derramamentos resume o que escreveu na frase: "a peça trata da vida urbana entre a solidão e a solidariedade". Fauzi lida também com a zona incerta entre a sanidade e o delírio, a vereda do profeta Gentileza que preenchia de inscrições os viadutos do Rio ("Gentileza gera gentileza") e artista plástico Artur Bispo do Rosário. Eis um terreno por onde Fauzi, como na música, sempre pisou devagarinho em busca de autoconhecimento e equilíbrio. Enredo simples, desarmadamente esperançoso ao ponto de poder ser chamado de Chorinho, título que comporta tanto a imagem do mestre Pixinguinha de sorriso manso quanto a doçura de Ernesto Nazaré apesar de sua vida trágica.

O texto é partitura para atrizes especiais. Denise Fraga tem o dom de transitar da comédia ao trágico. Nela, o riso é a camada mais visível do talento chapliniano capaz de traduzir o que há de assustado e ofendido no ser humano. Em grande parceria, Claudia Mello oferece vasta emoção interior brilhando no olhar e surpreende sempre com o gesto certeiro que eleva o texto. Temperamentos e ritmos diferentes e complementares no humor mesclado de seriedade. Ao fim, quando se abraçam num gesto de mutua aceitação, entendemos que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente. O poeta Fauzi acertou. Na praça do final da Avenida Paulista (com Consolação) vive uma negra calma e sem casa. É a Luiza. Os parentes não conseguem tira-la da rua. Ela volta. Por que faz isso é mistério que nos interroga. Em meio ao horror da droga e seus zumbis, Luiza é a verdade íntima de Chorinho.

Crítica: Jefferson Del Rios

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