Quando número 13 vira símbolo de sorte

Para Simone Gutierrez, estrela de Hairspray, a maré só traz peixe grande

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Simone Gutierrez nasceu num dia 13 de agosto, sexta-feira de ano bissexto, às 13 horas. Que tal? "As pessoas se espantam, falam uuhh, que medo de você. Mas sou uma bruxa do bem", brinca a atriz, bailarina e comediante. Ela que não é supersticiosa se considera uma mulher de sorte. "Muitas coisas boas na minha vida aconteceram nos dias 13." Simone vem arrebatando o público do musical Hairspray, em cartaz no Teatro Bradesco, com sua performance da adorável Tracy Turnblad: canta, dança e interpreta muito bem, roubando a cena até do astro Edson Celulari, que faz o papel de sua mãe na peça dirigida por Miguel Falabella e baseada no roteiro do filme de John Waters.

Para quem se habituou a associar "o número do azar" às garras metálicas do monstruoso Jason da série de terror Sexta-Feira 13, o peculiar senso de humor de Simone é uma chuva exorcizante. Seu timing para a comédia levou-a rapidamente à televisão. Desde o início do mês ela pode ser vista na novela Passione, de Silvio de Abreu, atual atração global do horário das 21 h. "Quase que o primeiro dia de gravação da novela foi no dia 13, mas foi no dia 12."

Seu perfil, vitorioso em Hairspray, é o avesso dos padrões da tevê e do balé: para interpretar Tracy ela tinha de ser (mais) gorda e para conseguir o papel entrou numa dieta de calorias até ganhar mais 20 quilos. Já com a peça em cartaz no Rio, começou a emagrecer de tanto se movimentar. Em cena na maior parte dos 175 minutos da peça, ela tem seis trocas de figurinos e nenhuma substituta.

Ao contrário das mulheres de sua (ou de qualquer) idade, a preocupação de Simone, de 34 anos e 1,50 m, é não diminuir a silhueta. "O grande barato da personagem é ela ser gorda. E de todas as montagens que teve no mundo eu sou a mais baixa, a mais magra e a que dança mais. Desde que estreei não me pesei mais."

Como a personagem que interpreta no palco, ela é meio outsider, nesse sentido, mas graciosa e moralmente leve. Tracy é seu primeiro papel de destaque no teatro musical e, como ocorre em outros países, ela vive rodeada de fãs rechonchudas que dizem se espelhar nela na questão da autoestima.

Formada em dança, nunca estudou canto nem arte dramática. Só começou a cantar para entrar em Les Misérables, um dos vários musicais em que desempenhou papéis de apoio. Nunca fez outro tipo de teatro. "Sou mais da comédia, gosto de coisas alegres, mas posso fazer um drama se surgir uma proposta bacana."

Quando Simone dá um spacatto - movimento em que se joga no palco com as pernas abertas em 180º - no meio de um número musical, é aplaudida freneticamente em cena aberta. "Ninguém faz isso, sou uma doida. Isso começou no ensaio, de brincadeira. O coreógrafo olhou e falou: O que é isso? O que mais você faz? Aí comecei a pirar e mostrar coisas que eu sabia fazer. Ele gostou e ficou sendo o meu diferencial na peça."

De gordinha a mudinha. Esse papel é um divisor de águas em sua carreira. Tracy abriu caminho para ela ser contratada pela Globo, primeiro na novelinha Malhação, depois no humorístico Zorra Total e agora na novela de Silvio de Abreu, que foi vê-la no teatro no Rio e criou uma personagem especialmente para ela.

Lurdinha não requer nada desses atributos todos que Simone mostra no palco. "Sempre que ela tenta se expressar é cortada pela outra secretária, Jackie (vilã interpretada por Alexandra Richter). Então, como é uma personagem que não tem fala, a expressão toda é no rosto, e é muito difícil de fazer. É mais fácil falar."

Entre os musicais em que Simone atuou teve Se Eu Fosse Bob Fosse, inspirado no moderno coreógrafo americano, que é sua maior referência na dança. Para se especializar, ela foi estudar um tempo em Nova York, onde assistiu a alguns musicais. "Foi um estudo pessoal, fui pra conhecer como eles fazem isso, como são as aulas, as escolas americanas. Foi bem específico, fiz aulas de canto e dança. Nas escolas de lá você consegue fazer de tudo um pouco, coisa que a gente não tem aqui. Ou se tem escola só de dança, ou só de arte dramática, ou só de música", observa. "Estudei no Broadway Dance Center e no Open Jar Institute. Fiquei maravilhada. Lá você pode ficar 12 horas por dia na escola e fazer de tudo um pouco."

Natural de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, ela ouve todo tipo de música, "menos sertanejo e axé". Dança desde os 3 anos e é profissional desde os 24, quando chegou à Capital. Agora na ponte aérea Rio-São Paulo, ela vem se habituando aos poucos à correria. Já foi convidada para um outro musical, que estreia em março de 2011, pela mesma companhia que produziu Hairspray. "Adoro ir ao cinema, mas com tanto trabalho, minha vida social foi a zero. Mas está ótimo."

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