QUANDO NAVEGAR É PRECISO

Com a montagem de A Marca da Água, a Armazém Companhia de Teatro comemora 25 anos de palco

O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h09

Crítica: Jefferson Del Rios

A força simbólica da água está em todas as culturas e em todas as épocas. A Bíblia começa com "O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas" (Gênesis, 1:2). No espetáculo que comemora os seus 25 fecundos anos de existência, o grupo Armazém Companhia de Teatro junta o imaginário que se perde no tempo aos dados atuais da neurociência. A Marca da Água (Sesc Santana, Av. Luiz Dumont Villares, 579, 2971-8700) começa explicando o líquido raquidiano, ou liquor, presente entre o crânio e o cérebro. Substância clara que alimenta os circuitos nervosos e remove impurezas dessa parte do organismo.

Breve explicação realista antes da viagem subjetiva de Laura, a protagonista, que na infância sofreu uma disfunção no interior da cabeça que, em tese, um dia poderá ser invadida pela parte líquida do mecanismo cerebral. É o momento da peça em que medicina e lenda se tornam o material literário da filosofia dramática dos autores, Mauricio Arruda Mendonça e Paulo de Moraes.

A mulher sofreu operações na infância e decidiu apagar as más lembranças e com elas alguns parentes e o afogamento do pai. Subitamente, porém, algo neurologicamente se desorganiza e ela passa a ter visões e a ouvir uma interminável música interior. O marido encara o fato como um caso clínico, mas Laura decide navegar nas águas e sons que só a ela pertencem, mesmo que à custa de conflitos com os circunstantes.

Há estudos sobre tais fenômenos e pesquisadores como Oliver Sacks têm grande audiência com livros que facilitam ao leigo um ramo difícil ou misterioso da vida. Sempre se soube de pessoas que ouvem vozes e foram vistas ora como místicas dignas de respeito ora como doentes mentais (a francesa Joana D'Arc é ao mesmo tempo figura da Igreja, da História e de teorias psicanalíticas).

Laura, no entanto, não tem a dimensão do divino, não se atribui missões e não teme as perturbações da mente, que levaram Virginia Woolf ao suicídio. É uma senhora comum que, nas palavras de Paulo de Moraes, vive numa aparente placidez, uma espécie de tristeza cotidiana que até lembra os versos de Luís Melodia (Lavar roupa todo dia, que agonia/Até sonhar de madrugada uma moça sem mancada/Uma mulher não deve vacilar). Pois Laura vacila - no sentido de não cumprir bons preceitos de comportamento. Com certo exagero, claro, pode-se dizer que enlouquece docemente a partir do momento em que acredita ter encontrado um peixe no quintal, vindo do nada, e a seguir passa a escutar a sua música particular.

Os autores assumem ter construído uma narrativa feita de descontinuidades e com um filtro surrealista. O enredo é mesmo fantasioso, embora ancorado no mote expressivo da livre escolha. Laura quer a profundeza líquida das dores e lembranças antigas. A água como revelação ou redescoberta é recorrente nos escritos referentes ao autoconhecimento, à filosofia da ciência e a valorização de uma cultura. O romancista peruano José María Arguedas, por exemplo, quando escreveu sobre o sofrimento e solidão da gente dos Andes, deu ao seu romance de cunho social e político o título Os Rios Profundos.

Em A Marca da Água, a situação de Laura é algo sério. Teria sido melhor, quem sabe, um desfecho mais definido, ainda que não linear, e que Patrícia Selonk, atriz de múltiplos recursos interpretativos, abrandasse o agudo monocórdio das falas. Texto e encenação sugerem sombras em uma vida em transformação, mas o que é grave ou tenso em certos momentos desvia-se para o absurdo humorístico.

Há instantes que soam oportunos e outros, não. Os retalhos de episódios, frases entrecortadas e gestos soltos do texto contêm momentos poéticos ou pungentes que ganhariam relevo se tivessem um fecho menos esgarçado a ponto de a cena final apanhar o público desprevenido. Há uma fração de dúvida na plateia antes de se notar que o espetáculo terminou. O aplauso que se segue assegura, contudo, que o sentido afetuoso e essencial da obra foi entendido.

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