Quando música é filme. E vice-versa

O meu café da manhã é muito especial, porque minha mulher Eliane gosta de ler para mim. Ela já me leu livros inteiros. Mas diferentes assuntos podem se impor. Dias atrás relembrávamos algumas definições famosas, como aquela de Nicholas Ray, "cinema é a melodia do olhar", uma outra de Abel Gance, "cinema é a música da luz", e minha mulher se saiu com esta, de sua autoria: "música é o cinema do som". Nada mais exato, para mim, que amo tanto a música como o cinema. Sinto uma identificação entre os dois processos narrativos. Vejo um filme como quem ouve uma música. Ouço uma música como quem vê um filme.

Gilberto Mendes & Erudita, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Em recente entrevista Pierre Boulez falou do extraordinário poder de narração que possui a música de Stravinsky. Na verdade, um poder muito russo, ouçam a Sheerazade, do Rimsky, o Romeu e Julieta, de Tchaikovsky. Mas esqueçam, por favor, esse ridículo filme sobre Stravinsky, que anda por aí, com cenas até de sexo estilizado entre ele e a Chanel. Um bom exemplo do mal uso da música no cinema, logo a de Stravinsky, que já foi tão bem usada em O Santo Beberrão, com Rutger Hauer

Uma noite dessas, vendo TV, confesso que até chorei, mas de felicidade extasiante, no final de A Casa da Rússia, quando Michelle Pfeiffer desembarca em Lisboa, descendo pela escada do navio em direção a Sean Connery, e a música de Jerry Goldsmith (um ex-aluno de Schoenberg) faz o fundo da cena. Lembro-me ainda de Fredrich March chegando da guerra (Os Melhores Anos de nossas Vidas), o filho abre a porta, no fim do corredor Thereza Wright e Myrna Loy ainda não perceberam a presença do pai e marido, e a extraordinária música de Hugo Friedhofer dá toda a emoção da cena. Verdade que o fotógrafo foi Gregg Toland e o diretor, William Wyler!

E o que falar de Alfred Newman, minha paixão maior! O Corcunda de Notre-Dame, Como Era Verde o Meu Vale, O Morro dos Ventos Uivantes. Além do prefixo musical da 20th Century Fox, ele compôs outras obras emblemáticas. Quem Matou Vicky, com Laird Greggar, a música se tornou um ícone da New York noturnal, perigosa. Tufão celebrizou The Moon of Manakoora, um outro ícone, agora dos mares do sul, cantado pela Dorothy Lamour. Um velho filme de espionagem dirigido por Fritz Lang lançou romântico fox-trot, que veio a ser usado novamente, tantos anos depois, em Every Time We Say Good Bye, com Tom Hanks e Cristina Marsillach, em delicioso arranjo com sordina cup no trumpet, que o par amoroso dança, durante a guerra, num bar em Jerusalém. E tem aquela paradisíaca música para Son of Fury, com Tyrone Power e Gene Tierney, que recentemente, e muito surpreendentemente, foi cantada pela deliciosa Keira Knightly num filme sobre a vida de Dylan Thomas, na cena inicial no metrô de Londres, durante a guerra.

E o que dizer de Grace Kelly perguntando para James Stewart como era possível alguém compor uma música tão linda como aquela que estavam escutando, através da Janela Indiscreta? A música era de Franz Waxman, outro discípulo de Schoenberg, que ainda foi professor de David Raksin, autor da antológica Laura.

Impressionante como a música de Vangelis nos envolve de maneira tão radiosa com Paris, em toda a sua plenitude, em Lua de Fel, de Polansky. E Henry Mancini com Los Angeles, naquela elegância sensual tão californiana da música para piano que abre Garota Nota 10. E Nino Rota com Roma, em A Doce Vida. Mas não vamos esquecer os compositores franceses, o George Van Parys de Un Jour, Tu Verras, o Maurice Thirrier de Os Visitantes da Noite, especialmente o Antoine Duhamel de Baisers Volés. Mas nada supera o Francis Lai de Um Homem e Uma Mulher, o filme que o Brasil não soube fazer com a bossa nova.

Tem ainda a soturnal música de John Barry para Corpos Ardentes, o estranhíssimo Badalaventi, de David Lynch. O expressionista Peer Raben, de Fassbinder, que Wong Kar Wai foi buscar na Alemanha para a música de seu 2046, como se não bastasse a extraordinária valsa de Amor à Flor da Pele!

Resumi o que mais me impressionou e me influenciou na música de cinema. É toda uma outra História da Música, de certo modo à parte da música de concerto erudita, mas igualmente significativa e emocionante.

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR DE UMA ODISSEIA MUSICAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.