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Quando morre o coração

Não errei. Um mês depois do meu enterro, casaram-se e a festa era outra

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2020 | 03h00

Morreremos do coração, mas o coração (esse termômetro do amor) pode morrer antes da gente.

*

Um dia, entrei no gabinete do meu avô Luar e encontrei o texto abaixo:

“Meu coração morreu faz 20 anos. Os espíritos não esquecem do dia e ano de suas mortes porque sabem que os mortos não vão mais tomar sorvete, beijar na boca e comer arroz com feijão. Na eternidade onde estou há enfado porque não há o instante - o que passa. Sabendo que morri, estou metido na eternidade onde nada acontece.

No dia da minha morte súbita como um espirro, vi sofrimento e corre-corre. O morto, conforme sabemos, é um inabalável centro de atenção. Um cadáver coberto de flores e de um elegante véu, imóvel e aparentemente contente, dentro de um caixão, escancara o portal da realidade. 

No além, vemos isso com nitidez. Imediatamente notei a perturbação dos amigos e inimigos, bem como observei o vazio sentimental dos meus parentes. 

Vivo, fui a muitos funerais, mas jamais havia notado como o morto reúne tanta gente e produz tanto falatório, medo e piadas. Ouvi muita coisa e notei os círculos em volta do caixão. Os mais próximos - esposa, filhos e netos - ao lado do meu rosto tisnado daquele amarelo cera dos defuntos. Amigos e colegas ficavam de longe. 

É curioso constatar como se faz com um evento jornalístico um velório. Mas um velório visto pelo espírito do morto que sabe de tudo, mas está fora do palco, fora do drama. Fiquei penalizado mais pela situação do que pelas demonstrações de sofrimento. Quando vivo, jamais achei fácil despachar (como fazemos com o lixo) o corpo de um ente querido. 

Vi Marcília, minha mulher, chorando muito agora que havia enviuvado e me arrependi de não lhe ter falado mais vezes do quanto eu a amava. Só depois que as pessoas morrem é que nos arrependemos de nossas sovinices emocionais ou das perguntas que não fizemos. 

Meus filhos choravam. Os primos riam e alguns colegas mal podiam esconder o alívio pela minha morte. Um deles murmurou um meio alto “já vai tarde...”; e um outro replicou “não vai fazer falta alguma”... Não fiquei indignado ou triste, não sentia nada porque os espíritos (como sei agora) vivem apenas parcialmente. Eles, como os santos, precisam dos vivos para celebrá-los. 

Terminado o funeral, muitos foram a minha casa. Anoitecia e uma lua brilhava só para mim porque logo que meus parentes, viúva, amigos e colegas chegaram, os criados abriram muitas garrafas de vinho e todos usaram minha morte para beber em minha memória e em louvor do meu espírito que, ali presente, ficava um tanto desconfiado, mas feliz porque não cabe a nenhum espírito ficar alegre.

Continuei pairando e pelo retinir das taças logo vi que minha pessoa, mal havia sido enterrada, começava a ser esquecida. Afinal, o vinho era bom e o Dr. Roberto, que só tomava uísque, sorvia sua terceira dose e se chegava com desenvoltura a Marcília, minha viúva.

Logo atentei que havia (conforme sempre desconfiei) algo entre eles. Eu sabia (mas não queria entender) que quando ela ia costurar com as amigas e eu via o carrão do Dr. Roberto, meu cardiologista, especialista em salvar corações, que o elo entre eles ia além das linhas bordadas. Para meu tormento insensível, pois as almas do outro mundo não sentem, ouvi o médico segredar algo como “agora, amor, estamos livres...” e no rosto de Marcília observei um disfarçado riso que eu bem conhecia na intimidade dos corpos, quando ela se desnudava no nosso casto e honrado quarto. 

Não errei. Um mês depois do meu enterro, casaram-se e a festa era outra. Só mencionaram o meu nome formalmente uma vez. Ao lado disso, meus descendentes só pensavam em mim quando falavam no que eu havia “deixado”. 

No ano seguinte, eu já havia desaparecido da vida desse povo que foi meu. Tal desmaterialização indicava que a cada minuto, hora, mês e ano, eu ia sumindo. Não nego que, de quando em vez, alguém sente saudade de mim. Mas hoje me conformo que sou lembrado para ser devida e sucessivamente olvidado. 

Irmãos, registro nessa psicografia como fiquei sentido com o egoísmo dos vivos diante dos mortos. Mas como evitar esse afastamento que vira saudade e é correto?”

*

Eu não sabia que vovô se comunicava com o outro mundo. Só espero, querido leitor, que ninguém também mate o meu coração. 

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