Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Quando felicidade não traz felicidade

Imagine que você é um bom escritor, não do primeiríssimo time, me perdoe, porém solidamente assentado na estima do leitor, que há muito o converteu em best seller, e também no respeito da crítica, quase unânime em reconhecer valor em seus livros, mais de 30, a maioria romances. Imagine que tenha tudo isso - e que, ainda assim, se sinta desconfortável, infeliz ao ponto de ceder à tentação do suicídio, depois de ter buscado matar-se também como escritor.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h27

Pois foi o que se passou com Romain Gary, francês de origem russa que teria chegado agora aos 100 anos de idade. Sua história, comprovação talvez de que felicidade nem sempre traz felicidade, daria um livro, desses que se desdobram em filme, como tantos que escreveu e, com certeza, ainda mais interessante do que vários deles.

Vivendo em Paris nos anos 70, acompanhei de perto aquela tentativa de suicídio literário. Em 1975, o prêmio Goncourt - o mais cobiçado num país onde galardões das letras provocam emoções e discussões para além do mundinho intelectual - foi concedido a Émile Ajar, pelo romance La Vie Devant Soi (no Brasil, Toda a Vida pela Frente), tocante e divertido monólogo de um garoto árabe cuidado em Paris por uma prostituta judia já desativada.

Repórteres saíram em busca do autor - e nada de Émile Ajar. Dele não se conhecia sequer uma fotografia. Tudo o que se sabia é que, um ano antes, estreara com Gros Câlin, romance recebido com moderado entusiasmo. Encontrar o misterioso romancista tornou-se um desafio. A certa altura, um repórter pareceu ter elucidado o caso ao afirmar que o ganhador do Goncourt era um jovem de nome Paul Pavlowitch, que um paparazzo flagrara, esquivo e irritado, num point da noite parisiense.

Tratava-se mesmo de Émile Ajar? Nem todos acreditaram. Um semanário, Le Nouvel Observateur, especulou em torno de dois autores consagrados, Louis Aragon e Raymond Queneau. Outro, Le Point, foi ao ponto: o verdadeiro autor seria Romain Gary - que com seu próprio nome publicara, também em 1975, um romance sobre o declínio sexual do macho, cujo título, naquela pré-história do Viagra, reproduziu um aviso suspenso nas saídas do metrô parisiense: "A partir daqui o seu bilhete perde a validade".

No falatório que se instalara, Gary ouviu de uma senhorita o relato de um caso de amor vivido nos braços de Émile Ajar, por ela descrito como "un très gros baiseur", rótulo pesado (embora exaltante) que convém aqui amenizar para "muito bom de cama". "Espero não tê-lo decepcionado demais", avaliou a criatura, inchada de modéstia.

Quando seu nome surgia nas especulações, Gary reagia com indignação, brandindo ameaças de processo judicial. Se alguém punha em dúvida a autoria atribuída ao jovem Pavlowitch - que era seu primo e com quem se acertara para que se passasse por Émile Ajar -, ele partia em sua defesa. A farsa seria reforçada em 1976, quando saiu novo romance de Émile Ajar, Pseudo, no qual um dos personagens se chama Paul Pavlowitch.

Pouco mais tarde, La Vie Devant Soi rendeu filme, Madame Rosa, com Simone Signoret no papel-título. O sucesso nas telas pouco terá valido para consolar Gary, a quem não faltariam mais e mais motivos para atormentar-se. Em 1979, matou-se sua ex-mulher, a atriz americana Jean Seberg, que em 1960 vivera em À Bout de Souffle (Acossado), de Jean-Luc Godard, ao lado de Jean-Paul Belmondo, um dos momentos mais altos da nouvelle vague. Mãe de Diego, o filho único de Gary, ela foi achada no banco traseiro de um carro, numa rua de Paris, dez dias depois de empanturrar-se de álcool e barbitúricos.

O romancista não tardaria em tomar o mesmo rumo. Em dezembro de 1980, aos 66 anos de idade, Gary/Ajar, diria meu amigo Paulo Leite, escoiceou as têmporas com chumbo e pólvora. Dois dias antes, confiara ao editor os originais de um livrinho de 42 páginas, Vie et Mort d'Émile Ajar, em que explicou a invenção de Ajar como tentativa de nascer de novo e recomeçar, farto que estava de si mesmo e de tudo, glória literária inclusive. "Eu tinha a ilusão perfeita de uma recriação de mim mesmo", confessou Romain Gary, antes de se despedir do leitor e da vida: "Eu me diverti um bocado. Au revoir et merci".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.