Quando a poesia substituiu a prosa

As barricadas de Maio de 1968 foram diferentes das sangrentas barricadas parisienses do século 19

Olgária Matos, especial para O Estado,

10 de maio de 2008 | 14h35

O maio francês, invertendo Engels em seu salto revolucionário, passou do socialismo científico ao socialismo utópico. A começar pelo internacionalismo - tradicionalmente só referido ao proletariado mundial - que se expandiu em filantropia radical: "Les frontières on s’en fout"(Que se danem as fronteiras). Quanto a Cohn-Bendit, duplamente estrangeiro - judeu e alemão, um dos futuros mitos do movimento - a resposta ao risco de sua expulsão: "Nous sommes tous des juifs allemands" (Somos todos judeus alemães). Por isso, nas paredes, a inscrição: "Liberté démocratique, égalité sociale, fraternité des peuples"(Liberdade democrática/igualdade social/fraternidade dos povos).   Em 68, a poesia substituiu a prosa pois, se Monsieur Jourdain, de O Burguês Fidalgo, de Molière, falava em prosa sem o saber, é porque o cotidiano prosaico do consumo burguês é sem elaboração literária. Por isso, 1968 foi, ao mesmo tempo, épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade, pondo por terra o bolchevismo imaginário do Palácio de Inverno. Não foi uma luta pelo poder, mas contra ele. Não por acaso, há um eco, em 68, do Discurso da Servidão Voluntária de La Boétie. Aqui não se preconiza a violência contra o tirano: "Decidam não mais servir e eis que vocês serão livres; não pretendo que vocês o acuem e o abalem, apenas não o apóiem mais, e vocês o verão, como um colosso a quem se retirou a base, desmoronar com seu próprio peso." E nos muros: "Il est douloureux de subir ses chefs, il est encore plus bête de les choisir"( É doloroso ter que suportar seus chefes, mas burrice maior é escolhê-los). Com efeito, diversamente da teoria da transformação revolucionária violenta da sociedade - que se constrói na lógica da efetividade das forças a combater - para o filósofo a trama do poder é imaginária e basta desfazer-se dela para ser livre, pois a multidão não é vítima de seus senhores mas de si mesma: "Assim sendo, o povo tolo fabrica sozinho as mentiras para depois acreditar nelas." E a construção imaginária por excelência é a linguagem e o encantamento da massa pelo Um, pela unidade, pois o tirano é antes de mais nada uma palavra, um "princípio de reunião e de unidade". Ele arranca a massa de sua diversidade: "O senhor é aquele que se apropria do sentido, isto é, da palavra."   Afastando-se de Marx , 1968 foi contra a estatização do indivíduo, afirmando os direitos da subjetividade e da espontaneidade criadora e consciente. Contrapôs-se à ideologia que condenava o indivíduo e a subjetividade, reduzindo-os à condição de "individualismo" e "sentimentalismo pequeno-burguês". Com a crítica à ética da abnegação e do sacrifício, a crítica ao mundo desencantado e burocratizado colocou como lema a verdade triunfante do desejo. Contra o mundo sem sonho e sem poesia, fez-se o mês de maio, convertendo a prosa em poesia, a sociedade em comunidade política - aquela que quer a felicidade e encontra novas razões da vida em comum.   Aqui, o exemplo da Roma antiga, enfatizado nos Discorsi de Maquiavel. Paris, como a Roma de Tito Lívio, não reivindica uma revolução total, indo na contramão daqueles que pretendem instaurar uma ordem definitiva no mundo e na cidade, como os revolucionários que se baseiam no logos de filósofos, Platão ou Marx. Porque o desequilíbrio é a matéria vertente da política, Maquiavel reconhece a grandeza de Roma, no "abandono tácito da idéia de solução definitiva": "Embora se passasse de um governo da realeza e aristocrático a um governo popular (...), jamais se retirou toda a autoridade do rei para passá-la aos aristocratas, tanto quanto não se privou dela inteiramente estes últimos para oferecê-la ao povo; ao contrário, a autoridade, tendo permanecido mista, a república tornou-se perfeita." Perfeita porque contraditória e "imperfeita". A Roma de Maquiavel inscreve em suas leis e costumes os conflitos que atravessam a sociedade, dando a si mesma os meios que promovem a paz: "A desunião entre a plebe e o Senado romano tornou esta república livre e poderosa." Glucksman, por sua vez, considera que o Maio de 68 foi a "passagem da França a seu momento romano."   Nova Ágora, a Paris de maio revelou a tensão, inerente à história política francesa, entre a soberania popular e o poder representativo. De fato, desde os anos 1600, a ação coletiva se passa, na França, a céu aberto, nas ruas da cidade, da Fronda às jornadas de 1789, de julho de 1830 a fevereiro de 1848, da comuna de 1871 à greve geral de 1936 e às barricadas de 68. A seqüência das greves que se espalharam pelo país inteiro, paralisando toda a produção de fábricas e indústrias, foi identificada, por sociólogos e analistas, como "a maior greve geral de toda a História."   Lembre-se que, desde que a Comuna de Paris e a autogestão foram substituídas pela República parlamentar, a França promove periodicamente "reajustes" entre povo e governantes, o povo reeditando a luta anti-parlamentar que permanece viva: "Agissez! Sabotez le parlamentarisme! Ne votez pas!"( Mexa-se! Sabote o parlamentarismo! Não vote). Reavendo Rousseau, o Maio de 1968 lembrava as análises do filósofo com respeito aos ingleses que, tendo sido os primeiros a instituir o parlamento no qual concentravam sua liberdade, só eram livres durante o momento em que se desenrolava o processo eleitoral. Com efeito, no Contrato Social, Rousseau anota que a liberdade só existe no momento em que se dá um vazio de poder, quando este retorna do Parlamento para a sociedade de que o poder se separa e sobre a qual se exerce. Recuperando a dimensão instituinte da política contra a instituída, a inscrição: "Participation: le nouvel opium du peuple."(Participação: o novo ópio do povo). Aliando Sorel à autonomia dos trabalhadores, o maio escreveu: "greve ilimitada". Das barricadas à festa revolucionária, o Maio de 68 foi , nas palavras de Cohn- Bendit, libertário, quer dizer : anticapitalista e antitotalitário, anticomunista e lúdico. Não considerou o sistema de partidos ou grupos de pressão a qualquer nível; não participou do sistema nem de seus métodos. O movimento não teve dirigentes, nem hierarquias, nem disciplina partidária.Contestou os profissionais da contestação, recusando o jogo que as oposições dominam: "La volonté générale, contre la volonté du général"( "A vontade geral contra a vontade do general" - trata-se de De Gaulle). Mesmo as barricadas não tinham caráter defensivo, foram mais um "ato de linguagem" com valor de citação, um imaginário social transfigurado da pintura e da literatura do século 19, de Delacroix a Stendhal e Flaubert. Como observou o historiador Jaqcques Baynac, que acompanhou dia-a-dia as jornadas de maio, a construção das barricadas no Quartier Latin significou um grande momento de convivialidade, reunindo estudantes e moradores do lugar. Neste sentido, escreveria mais tarde Cohn-Bendit: "Todos faziam qualquer coisa, sem saber. Na Rua Gay-Lussac havia dez barricadas, umas por detrás das outras, sem qualquer significado militar.Tínhamos vontade de fazer barricadas." Se é verdade que as barricadas do século 19 significam sublevação popular, é por atestarem a utilização da cidade como uma geografia material que se vale da altura das casas, das pedras das ruas e dos estreitos caminhos. Foi Benjamin quem as considerou como paisagem do século 19: "Barricadas - Às nove horas, em uma bela noite de verão, Paris - sem lampiões, sem boutiques, sem gás, sem veículos -oferecia um quadro único de desolação. À meia-noite, com as pedras do calçamento amontoadas, com suas barricadas, seus muros em ruínas, suas mil carruagens atoladas na lama, seus boulevards devastados, com suas ruas negras e desertas, Paris não se parecia com nada de conhecido; Tebas e Herculano seriam menos tristes; nenhum ruído, nenhuma sombra, nenhum ser vivo, fora o operário imóvel que guardava a barricada com seu fuzil e suas pistolas. Como moldura de tudo isso, o sangue da véspera e a incerteza do amanhã." Benjamin não deixa de notar a engenharia dessas construções. Número de paralelepípedos das barricadas de 1830: com 8.125.000 pedras, ergueram-se 4.054 barricadas. Em 1848, sua altura alcançava os primeiros andares dos edifícios. Benjamin registra, ainda, os métodos nada convencionais dos combates populares: "Mulheres jogavam óleo fervente ou água escaldante nos soldados. Cortavam os órgãos genitais de vários soldados da guarda aprisionados; sabe-se que um insurgente vestido com roupas femininas decapitou vários oficiais prisioneiros...viam-se cabeças de soldados espetadas em lanças plantadas sobre as barricadas (...). Por detrás de várias barricadas havia bombas de pressão que projetavam ácido sulfúrico contra os soldados que atacavam.(...). Enquanto os homens combatiam, as mulheres fabricavam pólvora e seus filhos preparavam projéteis, utilizando cada pedaço de chumbo ou estanho que lhes caísse nas mãos. Algumas crianças utilizavam dedais de costura para forjar as balas. Meninas carregavam paralelepípedos para as barricadas durante a noite, enquanto os combatentes dormiam." As barricadas de 68 foram outras barricadas, mais próximas do utopista Fourier: "A construção de uma barricada é um trabalho sedutor." Depois das experiências totalitárias, o maio francês revelou que uma revolução não se reconhece pela tomada do poder mas por sua potência de sonho.   Olgária Matos é filósofa.

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