Eliane Coster/Divulgação
Eliane Coster/Divulgação

Quando a periferia enxerga a si mesma

Trabalho faz parte de um movimento que vai além do filme

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2011 | 00h00

Há alguma coisa de diferente em Bróder, de Jeferson De e precisamos ter sensibilidade para o percebermos. Ok, à primeira vista estamos de novo na periferia de São Paulo, com personagens que tentam driblar as condições desfavoráveis e viver da maneira a mais decente possível. Mas, desta vez, existe um olhar novo, cheio de frescor, que coloca o filme em outro patamar, para além das suas possíveis limitações.

Os tais personagens - os principais, pelo menos - são três amigos de infância, Jaiminho (Jonathan Haagensen), Pibe (Silvio Guindane) e Macu (Caio Blat), que vivem de maneiras muito diferentes no presente. Jaiminho tornou-se jogador de sucesso, atua na Espanha e espera ser convocado para a seleção brasileira; Pibe formou-se em Direito e tenta iniciar a carreira a duras penas; Macu vive na fronteira do mundo do crime. Um é rico, em via de se tornar milionário; o outro é remediado; o terceiro é um pobre-diabo, de vida complicada e companhias suspeitas.

A novidade, como se disse, está no tipo de olhar que é lançado a esses personagens. Não é paternalista nem atenua conflitos. Constrói um retrato complexo da periferia paulistana, no qual a violência vive presente, mas não sob a forma de um determinismo trágico. A esperança também faz parte da existência das pessoas. Há um rigor de visão, que não concede nem ao obrigatório banho de sangue do "gênero" favela movie nem entra no bom-mocismo do filme-ONG.

Bróder respira a sinceridade de quem mergulhou naquele mundo e pode entendê-lo. Sem preconceitos. Com ternura e também com rigor. Muito do resultado foi obtido, por certo, pela imersão de Jeferson De e equipe na comunidade do Capão Redondo, onde a história é ambientada. Caio Blat é um exemplo: branco, veste a pele de um personagem que se define como negro. O mesmo empenho se nota no restante do elenco, incluindo a mãe (Cássia Kis) e o pai (Ailton Graça), formando a família interracial na qual os conflitos, e também a ternura, se exprimem.

Projetos como Bróder e outros, como Cinco Vezes Favela - Agora por Nós Mesmos são sintomas de que algo se move no monótono audiovisual brasileiro. A periferia do sistema econômico, antes pintada por artistas oriundos da classe média, como no tempo do Cinema Novo, agora retrata a si mesma. Começam a surgir obras de artistas cuja sensibilidade foi moldada nessa mesma periferia e, dessa forma, conseguem colocá-la na tela, livres do olhar muitas vezes estereotipado (quando não preconceituoso) com que antes era retratada.

Esses novos cineastas representam a inversão de uma perspectiva que data de pelo menos 50 anos de história cultural no Brasil. Não é pouca coisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.