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Humberto Werneck
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Quando a morte quase não doía

Naquele tempo, a morte não era uma questão pessoal; os outros morriam, não eu, não minhas pessoas. A danada tinha feito, é verdade, uns estragos nas imediações. O tio Zé Luiz, levado aos 22 anos pela mancomunação de vários males. Meses depois, minha irmã Ângela, aos 4 para 5 anos, envenenada por pólvora de fogos de artifício. Não era pouco, mas era tudo o que até então me tocara como perda.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2014 | 02h05

Não me deixaram ver a Ângela e o tio Zé Luiz. Meu primeiro defunto presencial ficaria sendo, um pouco adiante, o marido da dona Djair, nosso vizinho, velado, como se usava, na casa da família, na qual, fuçador, me meti sem autorização dos pais. Então morrer era aquilo, estar deitado e pálido, sufocado entre flores, sob o olhar choroso de mulheres abanando moscas? Só mais tarde, no começo da adolescência, a morte do primo Eduardo, meu companheiro de tudo, seria mais que um espetáculo. Foi ali, aos 13, que a morte começou a ser uma questão pessoal. Podia acontecer comigo!

Antes disso, as idas ao cemitério, todo dia de Finados, tinham algo de burlesco. Burlesco? De turístico, ao menos. Ir ao cemitério, descobri, pode ser bom quando se tem a certeza de não lá ficar.

Na véspera, chegavam as flores que meus pais haviam encomendado, invariáveis maços de agapanto roxo e branco. Enquanto os dois floriam o túmulo da filha, onde hoje estão, eu xeretava nas proximidades, naquele dia em que o mais soturno cemitério ganha ar de festa. Ainda sei os nomes de uns vizinhos da minha irmã, ali chegados pela mesma época, feito moradores de loteamento novo. Expostas ao tempo em mais de um sentido, imagens e estátuas se haviam revestido de azinhavre ou pátina; em muitos jazigos perpétuos, a decrepitude desmentia o adjetivo; declarações de saudade imorredoura se cobriam de descuido e pó em sepulturas que já ninguém visitava, quem sabe por estarem agora sob as mesmas lápides os autores das peremptórias inscrições.

Era interessante. Era divertido. Para ser sincero, era uma farra - e não só para o menino mórbido que fui. Meu tio João Antônio, ao surpreender o alegre matraqueado das filhas e sobrinhas caprichando na aparência para o velório na casa de um moço bonitão da turma do bairro: animadas para o enterro? Mamãe, ao flagrar uma das meninas se munindo de bolsinha e trocados para o adeus a uma parenta: dinheiro, minha filha?! A pirralha, radiante: pra comprar Chicabon! Carrinho de sorvete era o mínimo que se poderia esperar de tamanha novidade, o primeiro cemitério parque da cidade, no qual nossa parenta ia ser praticamente a defunta inaugural, se é que não o foi.

Bateu pesado em mim a morte de um companheiro de basquete, ali pelos nossos 16 anos. Mas como não rir ante a comédia bufa que se desenrolou na sala apinhada, na hora de sair o féretro? De repente, parecia haver ali duas turmas, e havia mesmo, uma de tampa em punho, decidida a fechar o caixão, outra contrária ao saimento, daí resultando vigoroso empurra-empurra, com o risco de derrubar os cavaletes que sustentavam o defunto em sua derradeira embalagem. Venceu a turma favorável ao enterro, mas nem assim se liquidou a parada: já fechado, nas mãos de seis carregadores, o caixão ia e vinha, avançava e recuava, num xaxado funéreo, até por fim, aos solavancos, transpor a porta e ganhar a rua.

Por essa época, tivemos que sair às pressas da sala onde se velava o pai de uma das meninas da turma, para não gargalhar, pois a empregada boazuda chorava mais do que a viúva. O velório de outro pai de amigo nos proporcionou, a mim e alguns comparsas, três deles hoje falecidos, uma gostosa madrugada, melhor que muita festa, nos bancos de couro do carrão americano do defunto, estacionado quase em frente, no qual nos refugiamos para muita prosa e riso, turbinados pelo conhaque contrabandeado da casa de algum de nós. De hora em hora, apeávamos e, trancando o riso, íamos, solenizados, a uma veladinha protocolar, para logo retornar ao aconchego do Ford Fairlane agora órfão de dono.

Depois, bem, depois crescemos e a morte virou essa tristeza que você conhece, mais triste ainda porque lá no bem-bom da infância ninguém nos avisou que a gente ia sofrer um bocado nesta vida.

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