Quando a ilusão conduz a vida

Há uma voz que define Isso É o Que Ela Pensa, texto do inglês Alan Ayckbourn. Antes de o espectador perceber o que, afinal, se passa em cena, a voz e a dona da voz, Denise Weinberg, já constituem um impressionante efeito dramático, acima e além das dúvidas sobre a obra e sua representação. A presença da atriz de olhar cinza-felino e a irradiação do seu talento impõem uma verdade concreta ao que é paradoxalmente subjetivo. A peça reflete em grande parte a mente de uma mulher. Vai demorar um pouco para se perceber isso, porque o início é longo e sem os recursos de corte e de close do cinema. O que deveria ser mistério é apresentado como um quebra-cabeça nem sempre estimulante. Depois, há uma reviravolta, felizmente.

O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h10

A personagem Susan é alguém entre a esquizofrenia como a medicina a reconhece e o teatro de absurdo. Em fase de surto, ela imagina um marido e uma família ideais em contraposição às pessoas que existem; e todos aparecerão no palco: os de verdade e os desejados. Ayckbourn, um cético bem-humorado nascido em 1939, transita entre o humor negro e a filosofia existencialista.

É de Sartre e outros pensadores a discussão a respeito das escolhas que fazemos e as angústias inerentes aos tropeços neste caminho. O que a personagem de Denise Weinberg planejou: marido ardoroso, filhos criativos, contraparentes e amigos graciosos, na verdade é apenas uma galeria de tipos banais. Como nada corresponde às escolhas feitas e resultados esperados, Susan inventa doces fantasmas.

O dramaturgo evita o contorno histórico e social do enredo (se o casamento foi por conveniência ou forçado, questões de classe, profissão e dinheiro, etc., elementos presentes em filmes como Vestígios do Dia e Albert Nobbs, este em cartaz). Ele quer memórias e pesadelos abstratos ou, apenas, enviar recados aos seus ingleses. A opção não o impede de ser um artista com ressonância em paragens distantes. É interessante e não cria polêmicas. Deu-lhe até um título de sir. Algo, porém, se perde nesse estilo literário porque há subtextos e nuances de cultura.

Como não estamos na sua pequena cidade de Scarborough (ou onde for do Reino Unido), valerá a pena ter cuidado com as palavras e, as pausas e, sobretudo, achar o clima próximo ao original, ou, então, transpô-lo para cá. O diretor Alexandre Tenório, que já provou criatividade, e o ator Eduardo Muniz (próximo ao escritor) aderiram sem distanciamento ao mundo de Ayckbourn. Se o texto provoca neles um estado de assombro, seria proveitoso considerar que nem tudo faz sentido ainda sob os refletores.

Por outro lado, o espectador, mesmo o bem informado, não conhece necessariamente sir Peter Hall, apesar dos seus méritos. Quando Hall, um diretor de teatro, assegura que a escrita de Ayckbourn mostra o que é viver na segunda metade do século 20, esta é uma frase deslocada aqui, porque diz respeito a outros ambientes e circunstâncias. A propósito: o título de sir é um assunto britânico. O contundente ator e dramaturgo Steven Berkoff, que causou impacto em uma edição do Festival Internacional de Teatro de São Paulo, promovido por Ruth Escobar, não é sir. Ninguém notou. Avisar também que Ayckbourn escreveu "quase o dobro" de peças que Shakespeare é uma informação solta no ar.

O espetáculo atinge melhor rendimento quando assume aquele grão de loucura expressa por Denise Weinberg em entrevista ao Estado: "A partir de certa idade, estabelecemos uma relação quase esquizofrênica com a proximidade da morte, com essa noção de finitude". Denise conta com a boa companhia de Clara Carvalho, que tira efeitos inteligentes do pequeno papel (como a mania do chá); Mario César Camargo nas aflições do marido verídico; e Mário Borges, o médico que tenta organizar o caos doméstico.

Ainda que um tanto nervosa ou sem ajuste de ritmo (impressão deixada pelo segundo dia da temporada), Isso É o Que Ela Pensa atrai por traduzir a indagação universal sobre a diferença entre vida que se sonhou e aquela que se fez. O ser humano quer descobrir o que Cecília Meireles condensou em um verso: "Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Crítica: Jefferson Del Rios

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