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Quando a dor da gente não sai no jornal

A impossibilidade de comunicação é tema de 'Esta Criança', que traz o melhor de Renata Sorrah e grupo do Paraná

JEFFERSON DEL RIOS - ESPECIAL PARA O ESTADO,

09 de maio de 2013 | 02h07

A desolação existencial está presente nas personagens de Esta Criança, de Joël Pommerat. São casais e solteiros, pais e filhos na impossibilidade seca de comunicação e carinho. Não há o crescendo psicológico característico do realismo. Só o fim da linha dos acontecimentos. O que sobrou da falta de diálogo, de algum erro sem volta e do afeto rompido, seja a jovem mãe que não sabe o que fazer com a criança do título ou o pai, aposentado e inútil dentro de casa. Pommerat contraria a célebre frase de Tolstoi em Anna Karenina ao insinuar que, sim, todas as famílias infelizes são iguais. Pequenas variações não alteram o essencial.

Pode parecer desanimador como apresentação e indicação do espetáculo que, na realidade, é muito bom na densa linha de observação humana que se conhece em literatura, teatro e cinema. Por exemplo, o final do filme Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) de François Truffaut (1959): na comovente cena em que o menino do enredo corre pela praia fria (está todo agasalhado). Vai e volta, olha o mar, quase encara a câmera, ou seja, nós mesmos. Desorientado, ele espelha a solidão absoluta e o doloroso é que sua vida está apenas no começo. Um tipo de situação que se encontra nas personagens da peça, mas em várias idades. Os costumes mudaram e hoje as liberdades são grandes. A comunicação é fácil a ponto de alguém poder atrapalhar a representação com a luzinha sinistra ou som desastroso do seu telefone. Falar em compulsão por celular pode ser visto como um raciocínio conservador e, neste caso, a obra de Pommerat seria um arcaísmo. Mas vamos registrar que ele é um autor francês nascido em 1963. Logo, tinha 5 anos quando explodiu o movimento de Maio de 1968, que sonhou mudar as relações sociais em um país rico, culto e economicamente poderoso. Uma juventude que pregava ser proibido proibir e a imaginação no poder, ideal que correu o mundo.

Agora, à sua maneira, o dramaturgo faz a revisão do sonho em dez cenas contundentes com pessoas aparentemente normais. Volta ao que não foi resolvido nas barricadas e nas boas intenções. Entrecho sem localização geográfica, embora não seja difícil pressentir certo formalismo impessoal europeu. No entanto, vale para qualquer lugar e o silêncio da plateia de São Paulo é eloquente. O homem continua só ainda que carregado de comunicação virtual.

A Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, reitera sua inquietação inventiva ao mostrar tudo isso em um cenário despojado, em clara alusão à pintura de Edward Hooper, no qual cinco intérpretes se entregam apaixonadamente ao grande paradoxo contemporâneo: o século 21 chegou e as carências afetivas continuam as mesmas e sem data. O filho não ouve o pai e vice-versa. A mãe se desculpa e não é perdoada. Há um simulacro de sociabilidade, mas o desencanto persiste.

O autor obviamente não tem a mínima solução. Quer apenas mostrar um incômodo, o vazio. Renata Sorrah, com a força dramática que a consagrou, impõe parte do magnetismo aos acontecimentos na companhia dos bravos colegas Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha que, embora menos experientes, são talentosos e estão igualmente mergulhados em seus papéis. Equilíbrio que ressalta a criatividade e pulso do diretor Marcio Abreu. Apenas os gritos e gargalhadas poderiam ser reduzidos por terem incômodos sinais de super-representação. Os silêncios e claros-escuros são mais eloquentes. Esta Criança é uma peça francesa e universal que confirma Chico Buarque: "O lar não mais existe/ Ninguém volta ao que acabou/ Ninguém notou/ Ninguém morou na dor que era o seu mal". Eis a síntese: a dor da gente não sai no jornal.

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