Quando a diversidade se une à qualidade CRÍTICA

Noruegueses, a soprano Mari Eriksmoen e o regente Eivind Gullbert Jensen fazem concerto que beira a perfeição

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 02h12

Equilíbrio e diversidade são conceitos que deveriam determinar sempre a composição do repertório dos concertos públicos, de modo geral. Quando se consegue unir a diversidade com qualidade das obras e performance de alto nível, o círculo virtuoso se completa. Foi o que aconteceu anteontem, na Sala São Paulo, graças a um notável casal de noruegueses: a soprano Mari Eriksmoen, 31 anos, e o regente Eivind Gullbert Jensen, de 42.

Na primeira parte, música vocal; na segunda, uma densa sinfonia. Jensen, preciso e envolvente, proibiu corretamente o vibrato das cordas e extraiu da Osesp uma leitura envolvente da abertura da Flauta Mágica, com um efetivo menor de músicos. Como solista, a soprano, timbre bonito, afinação justa e entonação clara, esteve próxima da perfeição em duas árias (a célebre Ach, ich fühl's de Pamina na Flauta Mágica e a linda ária de concerto Vorrei spiegarvi, oh Dio!) e no Exhultate Jubilate. O volume sonoro leve e o fraseado arisco mostraram-se exatos. Integração estilística entre solista e músicos, graças a Jensen. E destaque para as madeiras, impecáveis.

Na segunda, com a Osesp retornando ao seu tamanho habitual, o público assistiu a uma interpretação emocionante da Quinta Sinfonia de Sibelius (impecáveis também as trompas, que iniciam a obra e se expõem bastante o tempo todo). É a mais popular entre as sete do compositor. Aparentemente, representou um freio de mão em relação à modernidade atrevida da sinfonia n.º 4, que ele mesmo reconheceu ter ido longe demais na ambiguidade harmônica e na ruptura rítmica.

Em compensação, na quinta Sibelius leva ao rigor máximo seu ideal sinfônico, cochichado nos ouvidos de Mahler em 1907, quando o austríaco visitou Helsinque: "Admiro a lógica profunda que liga internamente todos os motivos". É uma revolução sub-reptícia, que recusa a organização convencional por temas. Opta por núcleos de motivos continuamente modificados, ligados entre si por pontos de tensão. Dito assim, parece complicado. Não é. Difícil é conduzir os motivos a estes pontos de tensão de modo a manter ligados os ouvidos do público. Jensen e os músicos da Osesp conseguiram isso. Um feito notável.

PRECISO, JENSEN EXTRAIU DA OSESP UMA LEITURA ENVOLVENTE DA 'FLAUTA MÁGICA'

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