Qualidade sem rótulos

Compositores libertários unem erudito e popular em discos memoráveis

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

Há algo de novo na cena musical. Comporta-se como um vírus, que, uma vez inoculado, provoca em compositores e instrumentistas o desejo de desrespeitar rótulos. Poderia ser um fenômeno apenas norte-americano. Mas se alastra também pela Europa.

De um lado, o movimento nova-iorquino Bang on a Can. Liderado há 23 anos pelos compositores Julia Wolfe, Michael Gordon e David Lang, batalha pela abolição de rótulos. Muitas vezes produz música descartável, mas há também criações memoráveis.

É o caso do primeiro CD da Asphalt Orchestra, criada e mantida pelo Bang on a Can, lançado em setembro pela Cantaloupe. O disco Asphalt Orchestra combina arranjos meticulosos de standards de Charlie Mingus (The shoes of the fisherman"s wife e Are some jive ass slippers), Björk (Hyper-Ballad) e Frank Zappa (Zomby Woof) com encomendas a criadores contemporâneos como Tyondai Braxton (Pulse March), Goran Bregovic (Champagne) e o casal preto e branco Stew and Heidi Rodewald (Carlton). O primeiro é filho de Anthony Braxton, um dos ícones dessa fusão erudito-popular; o segundo é sérvio como Emil Kusturica e assina as trilhas sonoras de seus filmes. O casal Rodewald está assim distribuído: ela, Heidi, toca baixo, ele é um trovador urbano que se autodefine como "blackarach". E o melhor é que as composições dessa trinca do barulho encomendadas pela Asphalt soam muito bem.

Na melhor tradição das "marching bands" de New Orleans, a orquestra tem 12 músicos na seguinte formação: flauta piccolo, saxes soprano, alto e tenor, dois trompetes, dois trombones, um sousaphone, bateria portátil, tam-tans e baixo. É uma clara tentativa de esticar a música popular e integrá-la à música contemporânea erudita.

Madrigais. Do outro lado do Atlântico, na Europa, o movimento é inverso. Vários grupos eruditíssimos dessacralizam os grandes gênios da música clássica. E um dos compositores mais visados é Claudio Monteverdi. Um pouco por causa da beleza de suas melodias; outro tanto pelas letras atuais de seus madrigais. A mais recente incursão aconteceu em outubro: o selo Glossa lançou o CD Round M - Monteverdi Meets Jazz. A límpida, bela voz da soprano solista Roberta Mameli e o grupo La Venexiana são liderados por Claudio Cavina. Sim, é Monteverdi com instrumentos de época como a teorba, a harpa e o cravo, ao lado de saxes soprano e tenor, acordeom, contrabaixo e bateria. Sonoridades bastante próximas das que André Mehmari obtém quando mergulha na sua paixão monteverdiana.

O autor intelectual da façanha é o regente Claudio Cavina, fundador do grupo La Venexiana há 14 anos. Ele imaginou e põe no papel um hilário bate-papo com Monteverdi no folheto interessante que acompanha o CD. É uma conversa entre dois Claudios. Ele coloca como epígrafe a certeira frase de John Cage: "O passado precisa ser inventado; o futuro precisa ser revisado."

Monteverdi, diz Cavina, teve uma ideia absolutamente única, que abriria caminho para a arte moderna: dar ao intérprete vocal a liberdade de "roubar o tempo", de flutuar sobre a base rítmica. Em plena passagem dos séculos 16 e 17, o compositor indica desse jeito como interpretar o hoje célebre Lamento della Ninfa: "Deve ser cantado no ritmo dos sentimentos da alma, e não na batida do compasso." É impressionante como a frase soa moderna.

É emocionante o modo como Cavina coloca o saxofone terçando lanças com a soprano Roberta Mameli, sobre o contínuo no cravo, no citado Lamento della Ninfa. E, cá entre nós, como o saxofone, instrumento inventado só no século 19, cai bem nessa melodia da passagem dos séculos 16/17. Em Ohimè ch"io Cado, outra melodia conhecida, entram o contrabaixo e até a bateria. Com direito a um belo solo de sax por Emanuele Cisi no fim. Os competentes Alberto Lo gatto e Donato Stolfi encarregam-se do contrabaixo e da bateria.

O CD vai além de Monteverdi. Inclui criações de outros compositores seus, como Tarquinio Merula, Nicolò Fontei e Giovanni Felice Sances. E conclui em grande estilo, com Trasfigurazione della Ninfa, uma reflexão musical contemporânea de Antonio Eros Negri, que soa seiscentista.

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