Qualidade das interpretações dignifica espetáculo

Crítica: Ubiratan Brasil

O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2013 | 02h09

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Quase uma década e meia depois de instaladas a criação e a produção de musicais no Brasil, o avanço é perceptível - formou-se uma nova geração extremamente apta a cantar e a dançar, atingindo níveis de excelência que surpreendem os especialistas estrangeiros que acompanham os processos de seleção. Falta apenas completar um vértice para que o triângulo se feche totalmente: a interpretação.

Os jovens que se dedicam aos musicais já exibem a voz talhada para cantar em um nível conhecido como 'belt', situado entre o lírico e o popular. Também frequentam aulas de dança que lhe dão autonomia para executar elaboradas coreografias. Mas, no momento em que não cantam ou dançam, muitos revelam uma fraqueza interpretativa, comprometendo a sua atuação.

É justamente a força da atuação um dos grandes trunfos de Quase Normal. E não podia ser diferente - apesar de quase totalmente cantado, o musical trata de temas delicados como depressão, suicídio e eletrochoque. As letras das canções, portanto, têm a função primordial de contar a história e, para isso, precisam ser interpretadas para que a característica particular de cada personagem seja imediatamente absorvida pelo público.

Como acontece em todo espetáculo, há momentos cruciais em que a trama é revelada ou mesmo sofre uma mudança de curso. É o caso em que o público descobre os distúrbios sofridos por Diana; ou mesmo a tentativa desesperada de Gabriel permanecer próximo da mãe. São momentos fortes, que buscam atingir o espectador no coração, mesmo que à custa de alguma nota desafinada pela emoção.

Nesse contexto, o elenco de Quase Normal é exemplar, mantendo uma coesão que torna difícil dividi-lo entre protagonistas e antagonistas. A começar por Victor Maia, no papel de Henry, o namorado de Natalie. Trata-se do personagem que oferece o alívio cômico à plateia, sem, contudo, desequilibrar a própria trama. E Maia sai-se muito bem, com trejeitos cativantes e sem exibicionismo.

Natalie também é um desafio para Carol Futuro - a garota que luta pela atenção dos pais (mais focados no filho mais velho) corria o risco de se tornar uma menina amarga e exagerada. Carol não deixa dúvidas sobre o sofrimento de Natalie, especialmente quando se declara como a "garota sem cor", mas sua atuação ganha brilho ao demonstrar que a filha se preocupa principalmente com a união familiar.

O mesmo caminho é trilhado por Cristiano Gualda, como Dan, o pai cujo equilíbrio é desnorteado pelos problemas familiares - sua atuação evidencia a luta pelo racional e, consequentemente, sua derrota pessoal. Como os médicos Fine e Madden, Rafael de Castro assume os papéis nesse início de temporada. Correto, talvez pudesse se soltar mais. Mas nada comprometedor.

Olavo Cavalheiro tem a difícil missão de interpretar Gabriel, o filho que só existe na mente conturbada da mãe. O ator confere uma rara sensibilidade que o torna praticamente real. Finalmente, Vanessa Gerbelli Ceroni, como Diana - em uma atuação madura, firme, com pleno domínio vocal, ela arrebata o espectador em sua luta inglória. Uma performance para se lembrar por muitos anos.

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