Qual Lula?

O cronômetro foi ligado. O caminho é tumultuado e conhecido

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2017 | 02h00

Lula se tornou candidato para 2018. Lidera pesquisas, vê a taxa de rejeição diminuir, percorre o Brasil em campanha. Tem experiência de sobra, e pode até se tornar voto útil. Se conseguir ir para a cédula, tiver um julgamento justo, e continuarmos o sistema presidencialista, em qual Lula o eleitor votará?

No líder sindical que, nos anos 1970, desafiou o regime militar, uniu trabalhadores, não se intimidou com rasantes de helicópteros do Exército em assembleias, recusou a colaboração da esquerda organizada, foi preso, submetido a humilhações e projetado à liderança contra a ditadura?

Ou o agregador do começo dos anos 1980, que fundou um partido sem a tutela dos comunistas, agora sim, com a esquerda organizada, estudantil, acadêmica, artistas e independentes? Recusava-se a fazer alianças com a discordância e aceitar dinheiro de empresas - o partido financiado pela militância e detentores de cargos do Legislativo, que doavam parcela dos salários.

Seria o Lula que iniciou a campanha das Diretas Já, ou o que expulsou deputados que votaram indiretamente em Tancredo Neves? O que participou ativamente da Constituinte, ou o que votou contra a Constituição de 1988?

Seria o “sapo barbudo” que conseguiu a façanha de unir PDT (Brizola), PSDB (Mário Covas, FHC, Serra) e PMDB (Ulisses Guimarães), numa chapa única contra Collor no segundo turno de 1989, ou o que liderou a bancada a votar contra o Plano Real?

Seria o Lula contra as privatizações ou plugado nas transformações da economia globalizada? A favor de alguma reforma da Previdência? Fecharia os olhos para a arrecadação de campanha recorde, engolindo caixas 2 de empreiteiras e frigoríficos, costurando alianças frankensteins com adversários, abandonando de vez a pureza (inocência) do projeto político, ou manteria a essência do seu partido?

Seria o Lulinha paz & amor, que subiria no palanque com desafetos históricos, “marionetes da ditadura”, como dizia Brizola, em paz com ruralistas, setores conservadores, empresariado, e seguisse a cartilha do FMI, item por item? Distribuiria renda em programas sociais, isentando de impostos produtos populares, como material de construção e bens domésticos da linha branca?

Elevaria de novo o PIB industrial em 10% num ano, ou levaria o País à bancarrota, como a sucessora? Seria “o cara” listado para o Nobel, ou o acusado de se apropriar de esquemas de corrupção anteriores, como o Mensalão Mineiro, para garantir governabilidade, aumentar a porcentagem da propina, inflacionar a marketagem política?

Instalaria na Petrobrás uma rede de corrupção bilionária, dividida em partidos aliados, como é acusado, venderia medidas provisórias a setores da indústria, ou seria o Lula que mudou o Nordeste, que entende por experiência própria dos problemas do Brasil profundo, aumentou a renda da família, o emprego, criou uma atmosfera de liberdade e respeito às minorias e aos direitos fundamentais, para contrastar com o retrocesso atual na área de direitos humanos, ou aquele que vislumbrou a expulsão do correspondente do New York Times?

Seria o Lula que desprezaria a crise mundial de 2008, chamando de marolinha, colocando o pé no acelerador e o BNDES a serviço de grandes empreendimentos corruptores, num ideal perverso de campeãs nacionais financiadoras de campanhas políticas, expandindo a fronteira agrícola por sobre a Amazônia, exigindo uma quantidade escandalosa de dinheiro em troca de influência, acusação que chocou o País, derrubou a sucessora e quebrou a economia, levando junto a credibilidade de instituições democráticas e da nova esquerda mundial?

O cronômetro foi ligado. O caminho de Lula é tumultuado e conhecido. Foi condenado por Sérgio Moro a nove anos e seis meses de prisão por conta do triplex do Guarujá. Ainda enfrenta outros processos. A confirmação da condenação viria pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região.

Recesso. Entramos em 2018. O TRF4 marcou o julgamento para final de janeiro. Se algum desembargador pedir visto, julgamento adiado. Logo depois, carnaval.

Se decidirem pela unanimidade, a defesa ingressa com embargos declaratórios. Se não for uma decisão unânime, a defesa entra com embargos infringentes ou nulidade. O réu escaparia da condenação em segunda instância e do filtro da Ficha Limpa? 

Prazos vão empurrando a ação. A campanha corre, alianças são amarradas, perdões oferecidos. A defesa pode ainda entrar com medidas cautelares, habeas corpus ou mandado de segurança no STF. Lula ficaria em liberdade para concorrer à eleição, assistir à Copa do Mundo da Rússia e tocar a campanha.

Se condenado, a defesa entra com recurso especial junto ao STJ (cerceamento da defesa) e recurso extraordinário junto ao STF (violação da Constituição). Um pedido de vista de um ministro tornaria outro pedido de perder de vista e trancaria a pauta.

Muda a presidência do TSE. Sai o ilógico aliado do Jaburu, Gilmar Mendes, e entra o independente pero no mucho Luiz Fux. 

“Daqui a um ano, o político mais popular do Brasil deve estar dormindo em um desses dois lugares: no conforto atrás dos portões do palácio presidencial ou em uma pequena cama atrás das grade”, escreveu sem papas na língua para o Washington Post, Marina Lopes, que também cobre política brasileira para BBC, NBC, PPS e Chicago Tribune.

Se ganhar a eleição em outubro, teria ainda alguns meses para ser diplomado. Novembro e dezembro seriam tensos. A reação de parte da opinião pública, imprevisível. Em janeiro de 2019, diplomado presidente, não é mais tocado. Estaria livre para governar.

Certeza, uma só: o Lula eleito seria o Lula de sempre, contraditório e indefinível. Que já combateu e sustentou a banda podre do empresariado e da política nacional. Se não puder concorrer, indica outro poste, já inflado pela campanha. Um judeu com sotaque baiano.

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