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Qual é a pergunta?

A maioria talvez nem chegue a saber que tem o direito (e, em certas circunstâncias, o dever) de indagar

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2017 | 02h00

Será que todo mundo tem uma pergunta? Uma “questão” - como se diz hoje em dia - transformando a curiosidade num disfarçado protesto?

 

Minha inspiração vem de um velho texto do antropólogo E. E. Evans-Pritchard que, numa reflexão sobre o seu estudo clássico da bruxaria entre os Azande, povo do então Sudão Anglo-Egípcio, lembra que “tanto na ciência quanto na vida só se acha o que procura”. 

Usei essa fulgurante admoestação como epígrafe no meu livro Relativizando, no qual eu introduzo a antropologia que pratico com o temor e a entrega dos que têm na sua profissão uma razão para viver. 

Todos temos perguntas-procuras e respostas-achados. Esquecidos de que o pensamento jamais é livre, pois depende de tempo e lugar: da língua e da cultura com as quais foi impingido. Quase sempre julgamos que perguntas e repostas são separadas quando, na verdade, elas se inter-relacionam. Uma implica outra. De pouco vale perguntar - num mundo mau - se Deus é bom! É óbvio que as incertezas barrocas dos juízes do Supremo conduzem a certeza mais absoluta do Juízo Final. Esse, sim, livre de foro privilegiado e, sobretudo, de prescrições.

As respostas dadas às grandes perguntas são suas imagens invertidas. 

*

A maioria talvez nem chegue a saber que tem o direito (e, em certas circunstâncias, o dever) de indagar. Perguntar, diria um filósofo e não um oráculo de segunda, como esse vosso cronista, é o embrião da liberdade. Escravos, altos funcionários públicos que recebem um absurdo do dinheiro da Previdência, lulopetistas corruptos que compraram o Estado brasileiro e os modos de produção de emprego sem trabalho jamais perguntam. Jamais duvidam. O autoquestionamento é a consciência - aquilo que nos faz humanos e, mais que isso, responsáveis. Essa palavra banida do vocabulário político brasileiro.

Todos passamos pela “idade das perguntas”. Por que os cães ladram e nós falamos? Por que o Brasil é roubado pelos seus políticos - eleitos pelo povo? Quem se aposenta em menos tempo de trabalho entre nós?

*

O que é um “pobre”?, como, um dia, me perguntou minha filha Maria Celeste, uma Celestinha que era um fiapo de gente e, morando desde os três anos de idade em Cambridge, Massachusetts, agora com sete anos e visitando pela primeira vez a casa de seus avós maternos em Santo Antonio de Pádua, jamais tinha se confrontado com alguém pedindo comida.

- Papai, disse Celestinha chorando, uma mulher que se diz pobre ficou indignada porque eu perguntei a ela o que era “ser um pobre”. Ela me passou um sabão porque eu não sabia. Me xingou muito, papai...

- Os pobres são os explorados, respondi de pronto.

- Por quem? Replicou Celestinha, tirando o fôlego do sociólogo.

- Pelas classes ou camadas dominantes. 

- Por gente como nós?

- Por nós, não! De jeito nenhum. Pelos capitalistas, empresários, industriais rentistas e comerciantes em geral. Nós somos professores, juízes, funcionários públicos...

*

Quem é o pobre foi o que pesquisei num trabalho realizado nos anos 90 em São Paulo no qual contei com a ajuda generosa de Cynthia Sarti e de Marcos Lanna. Nela, eu achei o que procurava. Vi que, sem definir o rico, seria impossível desenhar o pobre. As segmentações sociais são relativas, mas têm limites. A ausência de direitos e a legitimação da desigualdade extrema, como o escravismo negro como um dado real até 1888, ao lado de uma enorme desvalorização do trabalho, compensada pelo empreguismo no governo como salvação para as camadas médias, engendraram um trabalhismo “antitrabalho” mais controlador do que libertador. Ele levou à perda de direitos e, no limite, ao aniquilamento do País. Uma riqueza obtida clandestinamente pelo poder político e a ele associada permite que uma chamada “antiesquerda” tenha imobilizado o Brasil pela compra de partidos políticos, de emendas parlamentares, de estatais, bancos e dado emprego a um presidente da República! 

É chocante ver o País espoliado por sua elite neoesquerdista e não, conforme esperávamos em minha geração, pelo imperialismo ianque! Esse imperialismo hoje em luta semelhante à nossa contra o obscurantismo e a boçalidade.

Finalmente, uma pergunta que não pode calar: qual é a alternativa para o rombo da Previdência e para a modernização das leis trabalhistas? Em política de verdade não vale apenas ser do contra, ter uma bela cota de má-fé ou ser filho da CUT. É preciso apresentar alternativas. E se essa roubalheira tivesse ocorrido no governo de FHC? O que estamos vivendo seria revolução ou um mero golpe?

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