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Qual é a nossa língua?

O ideal é dominar a linguagem sintética, mas também investir em Euclides da Cunha

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 03h00

Mário de Andrade (1893-1945) ironizava a pretensão das elites brasileiras na obra Macunaíma. Em determinado momento da obra de 1928, na Carta Pras Icamiabas, o autor imita um estilo um tanto parnasiano e bacharelesco (cita, nominalmente, o falecido Rui Barbosa) e se espanta com a opulência linguística paulistana que “fala numa língua e escreve noutra”. Era uma crítica ao abismo (e à pretensão) entre a oralidade e as formalidades da escrita, na insistência de regências lusitanas e na busca de latinismos empoados.

Por muito tempo, o valor de alguém era medido pela riqueza vocabular, precisão e estilo erudito. Fulano era culto, dominava mesóclises, evitava barbarismos, contrariava o uso corrente e empregava palavras raras em orações com inversões sintáticas. Era um distintivo social, uma forma de exclusão mais do que comunicação. Por que dizer que o cachorro era de pelo castanho se poderíamos falar em pelo tanado? Uma casinha parália era melhor do que uma à beira-mar. Da varanda da dita casa, excitaríamos a osfresia com o roçar talassocrático, distantes da algaravia dos grazinas urbanos. Em outras palavras que o vulgo desconheceria, melhoraríamos o olfato com as ondas sem ouvir o falar confuso das pessoas de mau humor da cidade. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Hoje, falar assim faz você perder a entrevista de emprego, afasta pessoas assustadas com seu engrimanço (linguagem obscura) e, na insistência, isola o neoparnasiano.

Não se trata apenas de vocabulário. A ordem da frase, o uso de orações subordinadas, tudo foi transformado. A maior evidência é a dificuldade com o Hino Nacional Brasileiro, calcado em outra estética e inacessível em seu sentido para a maioria absoluta dos brasileiros. Joaquim Osório Duque Estrada fez das “margens plácidas” o sujeito em uma elaborada construção sintática. Soma-se o vocabulário rico (quando você usaria a palavra garrida fora do hino?) a recursos de inversão sintática e... temos uma nação que ama o Hino, todavia o desconhece. É quase impossível cantá-lo com multidões de forma clara. Era uma virtude na época da composição. Tornou-se um fardo para professores que o ensinaram, como eu.

Voltemos a Mário. Éramos ricos pelo uso de duas línguas, uma para escrever e outra para falar. Hoje, a língua escrita, encastelada em palácio de mármore, teve seu fosso terraplenado e suas torres atacadas pelas catapultas do uso coloquial. Se o modernista ironizou a insistência na norma formal lusitana, hoje caminharia em um campo devastado pelo uso que se impôs: a eficácia acima de tudo. Caem parnasianos e florescem especialistas no grande público. Importante é comunicar e nivela-se pelo ponto mais baixo, dando a entender que a oralidade é imperatriz e a formalidade, uma serva imunda que se esconde no porão da cidade conquistada. 

Tentarei ser mais direto. Na época do autor de Macunaíma, havia uma luta para que o português falado pelos brasileiros pudesse incorporar o uso corrente sem ficar prestando genuflexão a formas arcaicas ou em desuso. O brado era: vamos ouvir como se fala nossa língua nas ruas sem ficar tentando julgá-la. Tinha imenso sentido para evitar o “preconceito linguístico” quase sempre máscara de demofobia, de horror ao povo e aos pobres em particular.

Passados muitos anos, parece que vivemos o momento oposto. É válido apenas o que é falado na praça e a gramática normativa não tem mais espaço ou sentido. Transitamos da demofobia para a normafobia. Antes nada, agora, tudo é válido. Quero sempre insistir em três pontos para todos nós, usuários da língua portuguesa: a) ninguém fala a língua com perfeição ou sabe tudo sobre ela; b) a língua é um patrimônio amplo que passa pelo uso em todos os campos; c) a transformação da língua é um processo permanente. Falando do terceiro item: um aluno deve ser estimulado a dominar a linguagem rápida, sintética, sem vogais e com imagens do WhatsApp. Da mesma forma, deve ser levado a decifrar os longos períodos do padre Antônio Vieira ou o vocabulário de Euclides da Cunha. Acima de tudo, no coloquial livre ou no formal profissional, todos devem ter clareza da adequação e da precisão dos termos empregados. Todos estamos aprendendo sobre a língua portuguesa, sempre. Arrogância ao corrigir alguém são insegurança e dor pessoal. O tempo vai eliminar algumas expressões, apagar (ou seria deletar?) textos e autores, exaltar outros e criar novas formas. Não temos duas línguas (oral e escrita): possuímos inúmeras. A língua é viva e não pertence a uma pessoa. Quanto mais eu conseguir aprender, mais longe vejo e mais alcanço. Língua é patrimônio coletivo e é um imenso privilégio compartilhar o uso da lusofonia com irmãos europeus, africanos e asiáticos. É preciso ter esperança, filha da latina spes, quase sufocada pela imperialista hope. Sempre há esperança quando as pessoas se comunicam.

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