Quadros inéditos de artistas como Chagall estão no lote encontrado na Alemanha

Quase 1.500 obras foram encontradas num apartamento de um octogenário na Alemanha, algumas roubadas pelos nazistas dos seus proprietários

Ralf Iserman, AFP

05 de novembro de 2013 | 16h19

Quadros até hoje desconhecidos, entre eles um assinado por Marc Chagall e um autorretrato de Otto Dix, constam das quase 1.500 obras encontradas num apartamento de um octogenário na Alemanha na semana passada, algumas roubadas pelos nazistas dos seus proprietários.

Depois das revelações feitas no domingo pela imprensa alemã, o ministério público de Augsburgo quebrou o silêncio na terça e manifestou-se quanto ao “tesouro” descoberto por acaso durante uma batida em fevereiro de 2012 no domicílio de Cornelius Gurlitt.

As obras são de uma “qualidade extraordinária” e a descoberta provocou um “sentimento de felicidade incrível”, disse Meike Hoffman, historiadora de arte da Universidade de Berlim, que assessora a justiça neste caso. Picasso, Chagall, Renoir, Toulouse-Lautrec, Courbet, Matisse, Macke, Dix, Lieberman estão na lista de artistas cujas obras fazem parte desta coleção que deixaria morto de inveja qualquer curador de museu.

Não se trata somente de arte moderna, disse Meike Hoffman. O quadro mais antigo data do século 16. No total, são 1.406 obras, entre elas desenhos, aquarelas, litografias, gravuras e pinturas a óleo, encontradas no apartamento de Gurlitt, filho de um grande colecionador de arte que colaborou com os nazistas ajudando-os a vender obras roubadas de famílias judias.

Durante a inspeção do apartamento, em fevereiro de 2012, “foram apreendidas 121 obras emolduradas e 1.285 sem moldura”, disse Reinhard Nemtz, promotor geral de Augsburgo. “Obtivemos elementos concretos sobre as obras, cujo valor teórico não foi possível avaliar, que nos fizeram pensar que se tratava, em alguns casos, de obras pertencentes à chamada ‘arte degenerada’ de judeus durante o nazismo”, disse.

O regime nazista confiscou dos museus alemães cerca de 21 mil obras qualificadas de “arte degenerada” em oposição à denominada “arte heroica” oficial. Algumas foram destruídas, outras vendidas, e outras compradas por colecionadores.

Cornelius Gurlitt vivia da venda ocasional de desenhos da coleção herdada de seu pai. Na verdade, ele parece sofrer da síndrome de Diógenes, transtorno que leva o indivíduo a acumular todo tipo de objeto, uma vez que seu apartamento era um antro de lixo e de latas velhas de alimentos em conserva.

O promotor público Reinhard Nemetz disse que Gurlitt é investigado por fraude fiscal, embora também possa ser indiciado por “ocultação”, caso fique provado que algumas obras de arte foram roubadas.

De acordo com Siegfried Klöbe, responsável alfandegário de Munique, as obras foram “conservadas em ótimas condições” e estão em perfeito estado.

Não obstante, a empresa especializada no transporte de objetos de arte necessitou de três dias para embalá-las e transportá-las para um local não revelado pelas autoridades. 

A historiadora Meike Hoffman destacou que “as investigações sobre a origem das obras são complexas e levarão muito tempo”, mas insistiu que os quadros estão em ótimo estado.

“A investigação é ampla, difícil, complexa e deve ser longa”, disse o promotor,  descartando informações de que serão colocadas fotos das obras na internet para facilitar a identificação ou a busca dos proprietários legítimos, pois isto poderá ir contra os interesses deles.

Gurlitt, que encontra-se em liberdade, também possui um passaporte austríaco e uma casa em Salzburgo, mas a Alemanha não enviou nenhuma carta rogatória ao país vizinho.

O promotor Reinhard Nemetz afirmou que as autoridades alemãs não entraram em contato com Gurlitt e ignoram o local onde ele se encontra no momento.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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