Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Quadras reabrem em SP, mas especialistas não recomendam a prática de esportes coletivos

O ideal para a prática de esportes é dar preferência às modalidades individuais

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

24 de novembro de 2020 | 05h00

Os benefícios de praticar um esporte coletivo são muitos. O primeiro, claro, tem a ver com a atividade física, um dos pilares de uma vida mais saudável. Ganha-se também em aspectos psicológicos, com o desenvolvimento da agilidade, a experiência de uma atividade em equipe, além de aumentar o convívio social. Porém, em tempos de covid-19, será que ele é a melhor opção para se exercitar?

Os infectologistas são unânimes em dizer que não. Porém, com o avanço do relaxamento das medidas de isolamento social, os espaços para jogos de futebol, basquete, vôlei, entre outros, têm se ampliado, sobretudo em locais públicos. Em São Paulo, as restrições se prolongaram até o último dia 13 de novembro, quando o prefeito Bruno Covas publicou uma portaria no Diário Oficial do município autorizando a volta da prática de esportes coletivos amadores nas quadras de centros esportivos e parques municipais. 

Para o infectologista Renato Grinbaum, da Sociedade Brasileira de Infectologia, jogar bola com os amigos ou vizinhos do condomínio, voltar à quadra de vôlei ou jogar basquete no parque não é recomendável por enquanto. “Não é o momento para realização de esportes coletivos com fins recreativos ou não profissionais. No caso profissional, existem protocolos que minimizem os riscos, mas sem aboli-los completamente”, afirma.

A observação de Grinbaum pode ser vista na prática. O futebol profissional foi liberado para retornar aos gramados do Brasil em junho, depois de mais de 90 dias de paralisação e os clubes, mesmo submetendo seus atletas a testes de covid periodicamente, registraram diversos casos de contaminação entre jogadores, técnicos e dirigentes – foram 56 em uma rodada do Campeonato Brasileiro, na semana passada. Só o Palmeiras teve 18 membros do time diagnosticados com a doença. 

Nabil Ghorayeb, médico do esporte e cardiologista do HCor, é igualmente contra. “Não há esporte coletivo sem contato físico. E é na proximidade, por meio das gotículas salivares, que se dá a contaminação. No futebol e no basquete, por exemplo, você quase abraça seu adversário. Ele pode estar infectado. Além disso, se uma pessoa pegar na bola, ela terá que ser higienizada antes que outra pessoa a pegue em seguida. É inviável.”

A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer divulgou os protocolos para a retomada das atividades nos parques. De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) reforçou aos funcionários dos parques a orientação para que as aglomerações sejam evitadas nas quadras. Na prática, contudo, o controle é bem mais complicado.

O Parque do Ibirapuera, por exemplo, reabriu suas quadras esportivas. Essa reabertura já havia acontecido em 31 de outubro, porém, com a alta procura, a Urbia, empresa que administra o parque, fechou os espaços novamente dias depois e anunciou que iria implementar um agendamento prévio online para evitar a aglomeração dos frequentadores. Porém, segundo a assessoria de imprensa da Urbia, a opção está temporariamente suspensa por “questões técnicas”.

Já nos parques estaduais – como o Villa-Lobos – apenas os jogos de tênis estão liberados. Não é permitido usar as quadras para exercícios que exijam contato físico. No dia 30 de novembro, de acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, será divulgada uma nova atualização do Plano São Paulo, na qual a restrição poderá ser revista.

“O parque até pode medir a temperatura do frequentador que entra, porém isso não é garantida de nada. O indivíduo pode estar com a covid e não ter febre. Se vai jogar de máscara, será preciso levar pelo menos uma dúzia delas, já que, quando ela ficar úmida, será preciso trocá-la”, explica Ghorayeb. “Acho essa liberação um tanto quanto absurda. Não houve bom senso.”

Ghorayeb também faz um alerta importante. Quem já teve covid-19 precisa procurar um médico antes de retornar à pratica esportiva. “Em alguns casos, há sequelas importantes, como a arritmia cardíaca e a trombose”, diz.

Cuidados. Embora não recomendado pelos médicos, os esportes coletivos não estão proibidos na cidade de São Paulo e os clubes e associações se organizaram para receber quem se sente seguro para voltar às quadras. Além de muito álcool em gel, outras medidas foram tomadas para tentar garantir a segurança dos frequentadores.

A ACM retomou as aulas de esportes coletivos nas seis unidades da capital paulista desde 16 de novembro. Para garantir a segurança dos frequentadores, a associação criou um protocolo que deve ser seguido por educadores, que acompanham os treinos, e frequentadores. O documento traz, entre as orientações, a distância de 1,5 m entre os participantes das aulas, a proibição de cumprimentos e comemorações, o uso de máscara e a higienização da bola imediatamente antes do começo da prática esportiva. Os alunos terão de agendar o horário previamente, já que o quadro de atividades foi reduzido.

“Estamos em uma campanha de conscientização intensa. Cada um fazendo sua parte, com o respeito ao protocolo de atendimento, e com reforço dos educadores diariamente, continuaremos oferecendo a atividade com segurança, tão necessária neste momento da pandemia”, diz Cristina Neglia, responsável pela área de Educação Física e Saúde da ACM São Paulo. 

O Sesc, que também oferecia uma intensa grade de esportes coletivos e de recreação, não retomou as atividades – não há previsão para a volta. 

No Esporte Clube Pinheiros, um dos mais tradicionais da cidade, os treinos para atletas de alto rendimento e em formação voltaram no mês de julho, de forma gradual, quando a cidade de São Paulo autorizou a reabertura das academias. De acordo com o diretor da Área de Esportes Olímpicos e Formação, Fábio Ferraro, responsável por 15 modalidades, entre elas, vôlei, basquete e handebol, diversos protocolos de segurança foram implementados, como a restrição de número de alunos e atletas em quadra, a medição de temperatura na entrada do clube, a higienização constante dos materiais usados nas aulas e o contato permitido apenas durante o treino. Além disso, o clube elaborou um questionário que deve ser preenchido a cada treino com perguntas sobre sintomas e contato com pessoas que tiveram a covid.

As regras só são diferenciadas entre amadores e profissionais no que diz respeito ao uso da máscara durante as atividades. Até o sub 21 (vôlei e handebol) e o sub 22 (basquete), elas são obrigatórias. Apenas os atletas de alto rendimento podem retirar a proteção durante o treino. Ferraro, que foi jogador de basquete, acredita que a maioria dos alunos já se acostumou ao uso da máscara. “Eu corri de máscara, não é algo agradável. Porém, é preciso se adaptar.”

De acordo com Ferraro, que comanda 4.500 atletas, os alunos voltaram aos poucos e, atualmente, de 70 a 80% deles já frequentam as aulas. Desde julho, três casos de covid-19 foram registrados entre os atletas que estão sob sua diretoria. “Com esses procedimentos, o clube criou um ambiente saudável e seguro. Estou orgulhoso com o que implementamos”, diz. 

O Sieeesp, Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo, que representa 10 mil escolas, diz que segue o estabelecido pelo Plano São Paulo do governo do Estado em relação às atividades extracurriculares, em que se enquadra a educação física: os alunos devem manter distância de 1,5 m um do outro e a aula deve ser ministrada preferencialmente ao ar livre.

Alternativas. De acordo com informações do Imperial College de Londres no último dia 17 de novembro, o Brasil, ao lado de países como Portugal, Itália e Reino Unido, estão em fase de crescimento da doença. A taxa de transmissão do vírus voltou a subir – e também as internações. Dados divulgados pelo governo de São Paulo no último dia 16 já haviam mostrado que a média diária de novas internações ligadas à covid-19 em São Paulo subiu 18% na última semana, ao passar de 859 para 1.009. Diante disso, o Estado prorrogou a quarentena até 16 de dezembro.

“O relaxamento que está acontecendo na rotina das pessoas é uma das causas do aumento de casos. Estamos em um momento de recrudescimento da pandemia”, alerta o infectologista Renato Grinbaum. “A primeira onda não terminou, estamos passando por ela ainda. A doença está ativa na sociedade”, diz Nabil Ghorayeb.

Para os especialistas, o recomendável são os esportes individuais, como corrida, caminhadas e ciclismo. “Os esportes individuais são de baixo risco desde que não gerem aglomerações, pontos de convívio e conversa”, diz Grinbaum.

Ex-jogador de basquete, Ghorayeb diz que, quando quer fazer uma atividade física, desce para a quadra do prédio e joga basquete – sem ninguém por perto. “Faça sua atividade física sozinho. No máximo, com pessoas que habitam a mesma casa e conhecem o hábito uma das outras. E, mesmo assim, é preciso muito cuidado”, diz. Esse mesmo direcionamento consta de um documento do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, assinado pelo médico e outros 15 colegas.

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