Qorpo Santo é encenado no Arena

Melhor que a leitura de um bomautor teatral, só mesmo ser espectador de uma encenaçãobem-sucedida de sua obra. Prazer ao alcance do públicopaulistano a partir do dia 9, quando reestréia Um Credor daFazenda Nacional, de Qorpo Santo, no Teatro de Arena. Dirigido por Georgette Fadel com o elenco da Cia. São Jorge de Variedades, o espetáculo foi considerado um dos melhores da mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba de 2000, realizou três temporadas em São Paulo, excursionou porvários Estados e retorna agora à cidade. O grande mérito da diretora nessa encenação está em reproduzir com rara felicidade o clima surrealista que perpassa a dramaturgia de Qorpo Santo, sem perder em empatia com opúblico e em humor. São apenas 30 espectadores por sessão num espetáculo com diferentes cenários - diferentes salas de umarepartição pública - pelas quais o público é conduzido, semprena companhia do protagonista, que tenta em vão receber umdinheiro que lhe é devido. Embora mescle trechos de três peças do autor - Um Credor da Fazenda Nacional, Dous Irmãos e O MaridoExtremoso ou O Pai Cuidadoso - o eixo central do espetáculogira mesmo em torno do pesadelo kafkiano vivido pelo "credor"que, de posse de um requerimento, já bastante amassado, passapor uma via-sacra para tentar receber o que lhe deve a FazendaNacional. A primeira cena tem início antes mesmo de o públicoentrar no teatro e reproduz uma briga de garotos de rua. Oprimeiro impacto da peça se dá entre o contraste da cenaexterior, de clima tenso e ritmo acelerado, e a abertura dasportas da repartição pública: ali ninguém parece ter pressa. Convidados a sentar em cadeiras de diferentes salas deespera, onde compartilham o drama do protagonista, o público aospoucos vai percebendo que a peregrinação daquele "credor"começou há muito tempo. E suas tentativas são marcadas por umarotina exasperante, um jogo de empurra que o faz enfrentar ora aarrogância de um chefete, ora a indiferença de um funcionárioapático. Mas nem tudo é má vontade. Até mesmo os funcionários deboa vontade acabam perdidos no emaranhado da burocracia. Numa das melhores cenas do espetáculo, o credor vê-seenvolvido numa enlouquecida ciranda - muito bem coreografada -de carimbadores de processos, da qual acaba fazendo parte.Subitamente, toca um sineta que anuncia o "momento cívico".Gestos congelados, imóveis, todos escutam por um sistema dealto-falantes, o hino "como é bom ser brasileiro" seguido do"momento de relaxamento". "Todo brasileiro é credor da Fazenda Nacional; sabe oque é enfrentar filas imensas, ser mal atendido numa repartiçãopública ou, pior, esperar por socorro num hospital público, ondenão se é tratado com dignidade."

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