Qbert: poderoso e messiânico

Jovem que ajudou a elevar o DJ à condição de showman toca sexta em SP

CLAUDIA ASSEF - ESPECIAL PARA O ESTADO,

10 de dezembro de 2012 | 02h06

O termo malabarismo se refere à habilidade de manipular objetos com precisão e destreza. Até que, nos anos 1990, um grupo de jovens malucos por discotecagem teve a ideia de aplicar a arte do malabarismo ao ato de manusear toca-discos e vinis. Nascia o turtablism, uma façanha que ajudou a elevar o DJ ao patamar de showman.

Na próxima sexta-feira, dia 14, alguns desses garotos que ajudaram a criar essa técnica se apresentam em São Paulo. Trata-se do coletivo de DJs californianos que atende pelo nome Invisible Skratch Piklz, atração no Cine Joia dentro da segunda rodada de celebrações dos 10 anos da festa de hip hop Chocolate.

Um dos fundadores da Invisible Skratch Piklz, DJ Qbert é o grande destaque da noite. Ao lado dele, usando apenas discos de vinil, também tocam D-Styles e Shortkurt, membros originais do coletivo. Os DJs King e Zegon completam o line-up estrelado da noite.

Com 20 anos de carreira, Qbert é um dos DJs mais habilidosos do mundo em técnicas como o scratch, nome dado à produção de sons criados a partir de arranhões nada acidentais no vinil. Americano de origem filipina, Qbert começou a tocar aos 15 anos, em San Francisco, influenciado pela então emergente cena de hip hop local.

Em 1990, fundou a FM20, sua primeira 'banda' de toca-discos ao lado de Mix Master Mike (Beastie Boys) e DJ Apollo. Ao lado do DJ dos Beastie Boys, ele entrou para o DJ Hall da Fama em 1998, pela contribuição da dupla para a profissão.

Em 2009, lançou a Qbert Skratch University, uma escola virtual que ensina diversas técnicas de discotecagem a gente do mundo todo. Em 2010, Qbert ganhou o título de melhor DJ dos EUA pela votação online America's Best DJ.

Para quem cresceu no universo no hip hop, discotecar sempre foi levado a sério. Num mercado onde a busca pela batida perfeita é uma obsessão e, portanto, a concorrência acirrada, os DJs do Invisible Skratch Piklz se sagraram três vezes campeões do DMC (Disco Mix Club), o mais concorrido campeonato de discotecagem do mundo, que acontece anualmente desde 1986.

As gerações mais jovens podem ter sido apresentadas ao trabalho de Qbert através do game DJ Hero 2, no qual ele é um personagem. "Acho bem bacana poder chamar a atenção da molecada para a música através de um game. Porque o passo seguinte é eles descobrirem como tocar de verdade, e aí a coisa fica ainda mais divertida", disse o DJ Qbert em entrevista ao Estado.

Pergunto como alguém que se dedica tanto à técnica se sente num mercado um tanto banalizado - desde a chegada da música digital, todo mundo pode virar DJ do dia para a noite. "Acredito que nós artistas, assim como todas as pessoas, estamos aqui para fazer do mundo um lugar melhor. Fazer as pessoas felizes com nosso talento traz a mais profunda alegria. Sei que o karma é algo real, e o que a gente joga no universo é o que vai voltar para a gente", diz, em tom de conselho. "Então, todos os dias eu sonho em ajudar as pessoas ao máximo. O YouTube, por exemplo, é uma ótima forma de colocar nosso trabalho de graça à disposição das pessoas. Afinal, a maior felicidade é doar, e o maior demônio é o egoísmo", responde, messiânico.

Na era dos programas de computador que são capazes de realizar algumas das tarefas mais básicas de um DJ, como mixar uma música na outra, os campeonatos, segundo Qbert, ainda são uma ferramenta importante para propagar a preocupação com a qualidade. "Os campeonatos nos obrigam a melhorar. Quando você vê como os outros DJs estão evoluindo, quando você se depara com as ideias novas que surgem, é impossível não se inspirar e ir em busca de novidades, continuar crescendo, melhorando. É como uma árvore que nunca para de crescer, com seus galhos indo cada um para uma direção diferente", compara.

Preocupado com a evolução constante da profissão, Qbert criou a sua "universidade do scratch". "A ideia é mostrar as coisas que temos aprendido, mas também aprender com os alunos. Pensei em criar uma comunidade online que estimulasse todo mundo a melhorar com os segredos que expomos. Ali, eu também me considero um estudante, já que aprendo com as ideias dos outros DJs todos os dias", diz o modesto virtuose.

Por fim, pergunto como alguém que se interesse em ser DJ de verdade pode achar um lugar ao sol num mercado tão saturado. A dica é a seguinte: "Muita prática, muita paciência. Seja original e crie suas próprias regras. Não tenha medo de fazer coisas diferentes e use o poder de Deus, que está em cada um de nós, para criar coisas bonitas. Daí comece tudo de novo, e continue na busca. É como nas artes marciais, sempre haverá coisas novas para aprender". Para quem pretende ver essa aula ao vivo, é só se programar para não perder a festa de sexta.

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