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Puxando a carroça

O preço do metro quadrado nesta vizinhança requer mesada de um Marcelo ou de um Joesley

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2017 | 03h00

–Mudar é igual a morrer. (Gabe/Woody Allen) 

 

– Que tipo de besteira é essa? É só frase pronta, asneira. (Judy/Mia Farrow no filme 'Husbands and Wives') 

  

Esta semana, me despeço do bairro mais bonito de Manhattan. Só quando crescia no bairro carioca do Flamengo vivi tantos anos, fiz tantas amizades e me apeguei tanto à rotina de um só lugar.

Lou, o dominicano adorável que trabalha como zelador do edifício, reagiu assim, quando perguntei se poderia separar umas caixas de papelão no subsolo: “Por favor, não me diga que vai nos deixar”. Mantive a compostura, mas engasguei, sozinha no elevador.

Vou embora porque o preço do metro quadrado nesta vizinhança requer, salvo herança ou ofício diferente do meu, mesada de um Marcelo ou de um Joesley. Não era assim quando cheguei, mas, falta de sorte a minha, muitos mais foram atraídos para o verde, a proximidade do Rio Hudson e a belíssima arquitetura preservada nos prédios do começo do século 20, em estilos como Beaux Arts, Neoclássico e Art Deco.

Minha debandada residencial tem contrapartida numa debandada comercial, esta um subproduto da parasitagem da indústria imobiliária. É a decadência provocada pelo alto aluguel. Quem passeia pela Bleecker Street, no Village, pode desconfiar que a microvizinhança foi afetada pela liberação de um gás tóxico. Fachada após fachada comercial com vitrines cobertas de papel pardo e o anúncio “Aluga-se”. A ascensão e queda imobiliária da rua Bleecker começou no ano 2000, quando a personagem Carry Bradshaw, num episódio da finada série Sex & The City, foi comer um bolinho na Magnolia Bakery. Em pouco tempo, Marc Jacobs abriu seis butiques na área e Ralph Lauren, outras três. Pequenos comerciantes locais foram expulsos, os aluguéis dispararam e formou-se uma bolha, enquanto um tal de Jeff Bezos ia se tornando o homem mais rico do mundo com seu império de comércio virtual.

Minha vizinhança tinha comércio local que me permitia fazer tudo a pé. Tantas lojas foram fechadas que, ao saltar sozinha do metrô tarde da noite, passei a evitar as calçadas com vitrines escurecidas. Há lojas em volta do meu quarteirão vazias há cinco anos. O que faria um proprietário perder anos de renda de aluguel sem baixar o preço? Além da velha ganância, há o código fiscal injusto e o imposto predial alto. São tantas lojas vazias em Manhattan que proprietários residenciais estão preocupados com quarteirões fantasmas que podem desvalorizar seus imóveis.

Esta colunista inquilina não foi a primeira a chamar o caminhão da mudança. Quando cheguei aqui, caminhava para seis endereços de amigos. Hoje, sobram dois. Um que partiu me soprou as virtudes de seu bairro, em Manhattan, porém vinte minutos mais próximo do Canadá do que o meu. Duvidei, resisti, citei o que disse Woody Allen sobre mudanças. Mas bastou uma visita para meu coração ser flechado de novo. Também pudera, o meu guia, além de corretor parte do ano, vai emprestar seu poderoso gogó à próxima montagem de Homem de La Mancha no Arizona.

Não foi fácil ser aceita pelo proprietário, um senhor judeu hassídico que me fez esperar uma semana por uma entrevista em que só faltou perguntar qual meu tipo sanguíneo e com quem logo cometi a gafe de lhe estender minha mão. Em seguida, suspense para conseguir as chaves de um elusivo zelador. Depois de um dia deixando recados, recebo a mensagem de texto: “Estou no tribunal”.

Opa, e se ele não for absolvido?, pensei. Tudo acabou bem. O zelador albanês me deu a chave e disse que faria todos os serviços necessários no apartamento, indicando assim que sou sua freguesa cativa. “Claro”, respondi. “Sabe se os 40 amperes de força aqui são suficientes para os ares-condicionados?” O que é ampere?, ele perguntou.

Sinto que é o começo de uma bela amizade.

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