Puxadinho de luxo

Quanto vale uma plateia confortável e próxima ao ídolo? Pelos preços das áreas VIP, o céu é o limite

Lúcio Ribeiro, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Artifício oportunista para elevar o faturamento das casas de shows e festivais. Conforto e sinal de status para alguns poucos "muito importantes". Antipático, brega e câncer da música para o público "comum". As famigeradas áreas VIP ou Premium ou Prime ganham forte destaque (geralmente negativo) em 2010, ano em que o Brasil nunca recebeu tantos artistas e bandas internacionais tocando no País.

O problema não é o cercadinho VIP em si, moeda de troca para os promotores agradarem com convites privilegiados aos patrocinadores e apoiadores de seus eventos, além de em alguns casos institucionalizar o espaço para vendê-lo com entradas de preço elevado. Mas, especificamente, aquele espaço especial criado não faz muitos anos em pista de shows, EM FRENTE do palco e - aí é que está o problema - NA FRENTE do verdadeiro fã da atração que está se apresentando.

Redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut amaldiçoam, em coro virtual, a segregação econômica dos shows por causa dos altos preços de uma área VIP, muitas vezes mais que o dobro da pista chamada "comum". (Para os shows que o ex-beatle Paul McCartney fará no Morumbi em novembro, por exemplo, uma pista custa R$ 300, enquanto na mesma pista, mas na área Prime, sai por R$ 700).

Outro argumento contra a mania relativamente nova de separar com VIPs os admiradores fiéis da banda admirada é que a prática não encontra correspondência nos eventos musicais dos Estados Unidos e da Europa. (Para além dos festivais, no Brasil até casas fechadas criam as tais áreas VIPs na frente do palco. O Via Funchal, por exemplo, que já tem área de camarote, separa a pista em Premium e comum, vendendo por R$ 250 o ingresso para quem quer ver a banda de pertinho. Para os mais afastados, o preço é R$ 180).

Mais? Culpa-se o "puxadinho de luxo" das "pessoas muito importantes" por não receber em sua maioria o verdadeiro fã que acampa em fila de estádio ou na internet para comprar ingressos para ver seus ídolos. Isso esfria o show, porque fica comprometida a sinergia direta entre banda e seu público empolgado. Em um dos recentes e explosivos concertos do trio neopunk Green Day no País, o do Anhembi, em SP, o grupo via à sua frente uma comportada e cheia de espaços área VIP, para metros dali, atrás da cerca, então enxergar uma horda de fãs apinhada e no agito, com comportamento típico das apresentações do Green Day.

Por fim, há o risco de segurança. Em shows de rock mais pesados e viscerais, como o que aconteceu no começo deste mês em Itu, no festival SWU, o alerta havia sido dado semanas antes, na internet. Os fãs da banda americana de rap metal Rage Against the Machine avisaram na rede para quem queria ouvir que invadiriam a área VIP para ficar mais próximo do grupo, que nunca havia visitado o Brasil antes.

Dito e feito. E o show teve de ser interrompido por alguns minutos para organizadores e banda pedirem no microfone, com a música desligada, alguns "passos atrás" para o público não se esmagar um contra o outro ou contra a cerca que dividia os Premium dos "normais". Um vídeo assustador de 13 minutos circulou esta semana no YouTube mostrando apenas a área que dividia VIPs e não VIPs exatamente em um show do Rage Against the Machine, desta vez em Santiago, no Chile. Os seguranças do evento e a polícia não deram conta de impedir a invasão dos fãs, às dezenas. Houve briga, quedas, tumulto generalizado, até que policiais e seguranças desistiram e abandonaram à sorte as duas cercas divisórias de público.

"O problema do SWU eram os dois palcos grandes juntos, o que dificultava a colocação da área Premium de lado", justificou Milkon "Mac" Chriesler, diretor de eventos da The Groove Concept, que organizou o ecofestival de Itu. "Mas um novo formato de palcos e áreas para o público já está sendo estudado para a edição do ano que vem do SWU, para tentarmos solucionar essa questão", afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.