Pushkin e Tolstói , duas faces do drama russo

Clássicos dentro e fora de seu país, Eugênio Oneguin e Ressurreição ganham a primeira versão brasileira feita a partir do idioma em que foram escritos e reafirmam a permanência de uma literatura centrada na rebeldia

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Tolstói (1828-1910) e Pushkin (1799-1837) guardam em comum o fato de terem sido aristocratas rebeldes vivendo em duas épocas particularmente turbulentas na Rússia. Mais do que isso, impressiona como o conde Liev Tolstói, de certo modo, seguiu o roteiro - amoroso, político, filosófico - da vida de Alexander Pushkin e como a sua literatura lida com temas que seu antecessor não teve tempo para desenvolver. No ano do centenário de morte de Tolstói, que começou a ser comemorado em janeiro com a estreia de A Última Estação - filme sobre seus últimos dias dirigido pelo americano Michael Hoffman -, mais uma coincidência liga os dois grandes escritores: Ressurreição, o derradeiro romance de Tolstói, chega às livrarias brasileiras pela primeira vez traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, coincidindo com o lançamento da obra-prima de Pushkin, Eugênio Oneguin, que ganha sua primeira tradução brasileira por Dário Castro Alves.

Entre o lançamento de Eugênio Oneguin e o de Ressurreição há uma distância de 66 anos. O primeiro, um romance em versos, foi publicado em 1833, justamente o ano em que a Rússia ganhou seu hino chauvinista (Deus Salve o Czar). Ressurreição veio a público em 1899, momento em que o czar dissolveu o Duma (comitê de representantes da sociedade) e prendeu sete de seus integrantes por conspiração. Como se sabe, tanto Pushkin como Tolstói não simpatizavam com autocracias - e essa oposição ao regime czarista valeu a ambos o constante monitoramento de suas atividades. Pushkin foi exilado pelo czar por sua ligação com os revolucionários dezembristas (os liberais decabristas) de 1825 e depois perdoado, assim como Tolstói, que não chegou a ser banido por suas críticas ao governo seguinte, mas foi igualmente censurado. Outro ponto em comum: salvou-os o fato de pertencerem à aristocracia russa.

Suas afinidades literárias já foram exaustivamente estudadas: ambos eram leitores do escritor irlandês Laurence Sterne (1713-1768) e do filósofo francês Rousseau (1712-1778), presenças facilmente perceptíveis tanto em Eugênio Oneguin como em Ressurreição, que guardam traços autobiográficos de Pushkin e Tolstói, respectivamente. Sobre Oneguin, que despreza o amor de Tatiana, e o protagonista de Ressurreição, Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov, uma maldição pesa, a culpa por seduzir e abandonar mulheres com assustadora facilidade. Oneguin recebe sua punição ao reencontrar Tatiana depois de muitos anos, casada, apaixonando-se pela mulher que rejeitara. Nekhliúdov faz sua penitência ao integrar o júri que condena a prostituta Katiucha, reconhecendo nela a criada que seduzira anos antes. O nobre emerge da escuridão moral como o próprio Tolstói, após tentar o suicídio e abraçar a doutrina cristã. A ressurreição espiritual do herói, ao se ver seguindo a condenada até a Sibéria, é uma forma de autossacrifício em busca da redenção.

O tradutor de Ressurreição, Rubens Figueiredo, a respeito das supostas "intenções doutrinárias" de Tolstói - crítica frequente ao romance no século que passou -, discorda que o livro se preste a difundir suas ideias evangélicas. "Exceto por algumas frases avulsas, só nas últimas páginas o texto entra no terreno religioso." Bem, também nas primeiras, se consideradas as epígrafes com excertos dos evangelhos de Mateus, João e Lucas que falam de perdão, juízo apressado e aprimoramento moral. De qualquer forma, o que Figueiredo diz é que a religião, como se apresenta no livro, "pouco ou nada tem de sobrenatural". O romance, defende o tradutor, pintaria, antes, "um quadro da sociedade russa em vias de se modernizar". E a modernização social, no caso, passa pela revolução formal que Tolstói detona ao fazer de Ressurreição uma espécie de precursor do new journalism que tornaria célebre Truman Capote e companhia. Para escrever o livro, ele visitou prisões distantes, entrevistou presos, juízes e juristas, baseando sua história em pessoas reais. Só sobre prostituição ele leu seis livros quando escrevia Ressurreição, agindo como um antropólogo para entender as motivações de seus personagens.

A Rússia era, então, o avesso do que Tolstói sonhava. Identificado com a seita dos cristãos dukhobors - que rejeitavam a Igreja Ortodoxa, o governo secular e os ícones -, ele, um vegetariano que também negava a autoridade do czar, a propriedade privada e defendia o pacifismo (Tolstói chegou a trocar cartas com o jovem Gandhi), não podia mesmo ignorar o dilema moral de Nekhliúdov, representante de sociedade russa a julgar uma pobre prostituta abandonada por ele à própria sorte e injustamente condenada. No entanto - e talvez por ter morrido antes de escrever uma sequência planejada para o romance -, Tolstói não via a possibilidade de redenção para uma sociedade cujo sentido de justiça era o de preservar os privilégios da classe dominante, empenhada em usar um tribunal para fazer dele o instrumento de sua vontade contra deserdados como a sua Katiucha. Em tempo: Tolstói, antes de abandonar o lar e a mulher, cedeu os direitos de Ressurreição para ajudar os dukhobors - banidos pelo governo russo - a se fixar no Canadá, em 1899.

Naturalmente, o regime czarista temia igualmente Tolstói. Embora não alinhado politicamente a nenhum grupo, era o escritor mais popular da Rússia, seu guia espiritual, não poupando críticas ao governo. Quando o czar Alexander II foi assassinado, em 1881, seu sucessor recebeu do escritor cristão o pedido de clemência para os criminosos. Tolstói só não teve o mesmo destino dos seis assassinos - a forca - por sua força política e ascendência nobre.

Pushkin, também aristocrata, usou a mesma estratégia para se livrar da polícia czarista, mas amargou seis anos de exílio dentro da própria Rússia, por simpatizar com os liberais dezembristas de 1825 e escrever poemas profanos como Gabrielíade, quase tão ultrajante e erótico como Cristo Ascende. Escrito em 1820 para a filha de uma hoteleira, o poema garante não haver diferença entre o beijo de um judeu e o de um cristão ortodoxo. A despeito do lirismo de Eugênio Oneguin, Pushkin tinha a língua solta. Foi apelidado de "o francês" não pelo conhecimento que tinha do idioma de Rabelais, mas do seu lado escatológico. Para completar, tinha a mania de ir a jantares e escandalizar burgueses vestindo uma calça transparente de musseline - e, ainda por cima, sem as roupas íntimas.

Um pouco cínico como Oneguin, que flerta com Olga, irmã de Tatiana e namorada de seu amigo Lenski, Pushkin teve o mesmo destino desse seu inocente personagem, morto em duelo. Morreu, inclusive, com a mesma pistola francesa usada pelo protagonista do poema-romance para matar Lenski. Depressivo, Pushkin não viveu 82 anos como Tolstói para se arrepender da vida louca que teve como jogador, beberrão e frequentador de bordéis. Tanto que o patriarca da Igreja Ortodoxa de São Petersburgo se recusou a celebrar o serviço fúnebre do escritor na Catedral de São Isaac, por considerar seu duelo com o rival barão Georges d"Anthès (1812-1895)- que flertava com sua mulher - um espécie de suicídio. Talvez o patriarca estivesse certo. Tanto Pushkin, que morreu aos 38 anos, como Tolstói, já eram mortos sociais numa sociedade incapaz de assimilar tudo o que não é espelho.

VARIAÇÕES

As diferenças de grafia nos nomes próprios russos que aparecem nestas duas páginas - como Alexander Pushkin e Aleksandr Púchkin - decorrem da transliteração do idioma adotada pelos estudiosos. O tradutor Dário Moreira de Castro Alves usa o modelo inglês, no qual, por exemplo, o SH substitui o símbolo que, em português, vira CH (usado por Aurora Bernardini em sua resenha da página ao lado). Também por isso ocorre a variação no uso

ou não de acento.

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