"Purificado" apresenta Sarah Kane ao Brasil

Sarah Kane foi a mais radical, a mais polêmica e corajosa dramaturga inglesa da década passada, lançada em 1995, com a peça Blasted. Sua carreira foi tão curta e intensa como sua vida, que terminou em 1999, quando ela se suicidou, aos 28 anos. Deixou quatro peças de tirar o fôlego da assistência, colando o amor romântico a camadas de drogas, cenas de incesto, horrores de guerras, com suas devastações e mutilações humanas. A barulheira causada pelo teatro cruento de Sarah na Europa nem em carta chegou ao Brasil. Aliás, permaneceu invicta em toda a América Latina. Mas Cleansed, texto de 98, faz hoje sua estréia nacional, sob o título Purificado, com o grupo carioca Tropel e tradução e direção de Felipe Vidal. A peça se desdobra num campo "universitário" de concentração. Atrás das grades, surge Grace (traduzida por Vidal como Graça), que esperava tudo do irmão Graham (Gabriel) - a quem amava libidinosamente -, menos que ele se entregasse definitivamente a uma vida junkie, morrendo de overdose por heroína. O mito do duplo é desfolhado na peça, com a personagem feminina buscando Graham (em vida, em sonho?), para trocar de identidade com ele. Paralelamente, acompanha-se a escalada para a solidão do casal homossexual Rod e Carl. Tinker, o doutor que manipula os personagens na manutenção da dor física, do horror e do consumo de drogas, acompanha os personagens do começo ao fim. Tinker, à primeira leitura, soa como um ditador, mas segundo o diretor Felipe Vidal, ele pode ser identificado como o instrumento de realização dos desejos recônditos dos personagens. "O que mais me impressionou na peça de Sarah Kane foi encontrar uma dramaturgia altamente contemporânea, com interferências de outras artes, como o pop musical, os diálogos em forma de quadrinhos e cenas fragmentadas como num videoclipe", diz o diretor Felipe Vidal, que com os atores do Tropel, já dirigiu no Rio Salto Alto, de Mario Prata, e O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Numa das cenas mais fortes e poéticas de Purificado, Grace e Graham - este já morto -, dançam, se imitam, fazem amor e se abraçam, até que "um girassol nasce do chão e cresce sobre as cabeças deles". No conteúdo, a peça exala urbanidade, discutindo os limites do desejo, a noção de responsabilidade, o livre-arbítrio e o individualismo. "Sarah não está interessada em simplesmente contar uma história. Ela se preocupa em organizar interações entre fatos e sentimentos", atesta Vidal. O texto chegou às suas mãos por um amigo ator inglês, coincidentemente cinco dias antes da morte da dramaturga. Danos - A primeira peça da autora, que era filha de jornalistas, foi Blasted, abordando os danos psicológicos da guerra do Leste Europeu, alegoricamente na história de um casal num quarto de hotel. Ele, um jornalista de meia-idade, estupra a moça retardada que está com ele nesse quarto. Em seguida, o ato é invertido, com a entrada súbita de um soldado violento, que acaba por estuprar o jornalista. No ano seguinte, em Phaedra´s Love, atualizou o mito de Fedra, em seu obcecado amor por Hipólito. Seguiram-se Crave e 4.48 Psychosis - esta última um monólogo tão poético quanto terrível acerca da hora da madrugada mais propícia ao suicídio, segundo a autora. Sarah teve suas peças montadas pelo núcleo de dramaturgia mais relevante do mundo, o Royal Court Theatre, de Londres. Aliás, um dos mais importantes dramaturgos da atualidade, Harold Pinter, era fã de carteirinha de Sarah. Ele percebia a genialidade com que a jovem dramaturga trabalhava sua poética. Outro autor contemporâneo e não menos polêmico, Mark Havenhill, autor de Shopping & Fucking (montada no Brasil por Ricardo Blat e Rubens Caribé), incentivou a carreira de Sarah. Mas, em contrapartida ao respeito dos colegas dramaturgos, os críticos ingleses mostraram que estavam odiando seu teatro chocante. Um crítico do jornal Daily Mail, à estréia de Blasted, chamou a montagem de "banquete de imundície". Sarah Kane sofria de depressão, que foi agravada quando terminou uma relação homossexual meses antes do suicídio (enforcou-se com cadarços do tênis, no banheiro do hospital psiquiátrico onde estava internada). Numa rara entrevista, disse que Cleansed havia sido escrita por alguém que acredita completamente no poder do amor. De fato, há quem diga que a melhor fala de Purificado seja essa declaração amorosa: "Eu te amo agora. Eu estou com você agora. Eu vou fazer o meu melhor, momento a momento, para não te trair. Agora. É isso. Mais nada. Não me faz mentir pra você."Purificado - TBC, Sala Arte: Rua Major Diogo, 315. Tel: 3115-4622. Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h. R$ 15,00 e R$ 20,00 (sábado) Até 5/5.

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