Washington Post photo by Jahi Chikwendiu
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Pureza em estado bruto de novo especial de Dave Chappelle é o que lhe dá sua grandeza

'8:46' foi gravado apenas duas semanas depois do assassinato de George Floyd pela polícia, e se configura como um monólogo em estado bruto do comediante

Sonny Bunch, The Washington Post

21 de julho de 2020 | 18h14

Na descrição do novo especial de stand-up de Dave Chappelle — “monólogo” é provavelmente uma palavra melhor — o lendário comediante oferece um quase pedido de desculpas preventivo: “Normalmente eu não mostraria algo tão em estado bruto, espero que vocês entendam”.

Mas esse estado bruto é o que faz o set tão poderoso. A natureza não ensaiada dele, a emoção sem restrições de tudo aquilo. Mesmo o cenário parece cru: as pessoas vão para o que parece ser um parque, sentam em mesas com distanciamento social e usam máscaras, cercadas por um sistema de som improvisado. Uma legenda nos informa que faz “87 dias que Dave Chappelle subiu num palco pela última vez”. A data é 6 de junho, menos de duas semanas depois do assassinato de George Floyd por um policial que se ajoelhou no pescoço dele por oito minutos e 46 segundos. A apresentação ocorre em meio a protestos pacíficos e manifestações violentas, marchas à luz do dia e saques pela noite.



Há muitas formas de intelectualizar a revolta das últimas semanas, enfiar o que vemos em telas de TV nas nossas caixas pré concebidas. Martelar estacas ideológicas quadradas nos buracos redondos da realidade é o passatempo favorito das redes sociais, e as últimas semanas não foram diferentes nesse sentido. E é por isso que a explosão sem verniz de Chapelle de raiva, tristeza e desesperança é tão poderosa. Ela afasta muito do encolhimento e da hesitação que distorcem essas discussões.

Depois de abrir com uma rápida colocação sobre o terremoto Northridge e de quanto aquela experiência foi ao mesmo tempo breve e assustadora — “o terremoto não durou mais do que 35 segundos” — ele chega ao coração da questão: “Esse homem ajoelhou no pescoço de outro por oito minutos e quarenta e seis segundos”. A voz de Chappelle cresce, suas mãos chacoalham o caderninho que ele carrega. Essa não é uma demonstração ensaiada de raiva; não é um beat polido num especial de stand-up desenhado para se mover para o próximo momento, para encorajar a próxima risada. É raiva, pura e simples.

“Com quem. Você. Está. Falando. O que você está significando? Que você pode ajoelhar no pescoço de um homem por oito minutos e quarenta e seis segundos e sentir como se não fosse ser vítima da ira de Deus. É isso o que está acontecendo agora”, diz Chappelle. “Não é por um simples policial. É pelo todo.”

Se 8:46 é desenhado para fazer algo, é para gritar que esse não foi um incidente isolado, que a raiva aqui é justificada por anos de maus tratamentos, em múltiplas jurisdições, contra tantas e tantas pessoas.

“Eu não minto para vocês”, diz Chappelle um pouco depois, e essa contação de verdades o colocou em apuros nos últimos anos, por parte de pessoas que não gostam muito do que ele tem a dizer. Mas essa sabedoria — de que ele não está se segurando, que ele ganhou dinheiro e credibilidade suficientes para dizer o que quiser, quando quiser e para quem quiser — serve muito bem a ele, e a nós, aqui. “A única razão pela qual as pessoas querem ouvir gente como eu é porque vocês confiam em mim. Vocês não esperam que eu seja perfeito.”

Conforme Chappelle pula de assassinato a assassinato, de Eric Garner a Philando Castile a John Crawford, você pode sentir o horror dessas conexões, a maneira com que cada uma parece levar à outra, e à próxima, e de volta à primeira. Você pode sentir o peso esmagador de morte atrás de morte, e o que isso pode fazer a uma pessoa que vê a si mesma em cada uma das vítimas. É a natureza do quase-mas-não-exatamente fluxo de consciência em estado bruto que confere poder ao especial, a maneira com que Chapelle fala que oito minutos e 46 segundos é o tempo de seu nascimento, sua abordagem da tristeza da morte de Kobe Bryant e como o jogo final de Bryant pode ou não ter distraído o país de outra orgia de violência.

É a raiva. A raiva justificada e compreensível. E funciona porque está em estado bruto e não afiado. O monólogo de Chapelle lembra Nanette, de Hannah Gadsby, que sempre pareceu meio desconectado para mim, em parte porque a raiva naquele set era refinada. Era uma performance, cuidadosamente calibrada como qualquer set de stand-up. Foi desenhada para acertar todas as notas certas sobre os pecados modernos do sexismo e tudo o mais, assinalando a emergência de Gadbsy como um Jonathan Edwards moderna, a pregadora de um “radicalismo puritano”, como Hilton Als descreveu o trabalho dela.

Chappelle não é um pregador. Ele não é nem um comediante de fato aqui. Ele é apenas um cara que sabemos que vai falar o que pensa. E confiança está em falta nesses dias.

“Representação não é endosso” está entre os mais importantes axiomas críticos; a isso, eu acrescentaria que “entendimento não é concordar”. Alguém pode ouvir o monólogo de Chappelle, seu grito de raiva, entendê-lo e discordar do sentimento de que botar fogo em lojas é ok, que roubo é resultado natural dessa raiva. Há um diagrama de Venn em que as pessoas podem concordar que protestar é bom, violência policial é ruim, e tumultos fora da lei são inaceitáveis e precisam ser contidos.

Mas eu imploro que você escute Dave Chappelle e tente entender o que ele está dizendo, de onde ele está vindo. Estou certo de que arte — parte dela ótima, parte ruim — vai emergir deste momento. Nenhuma será tão pura quanto este esforço de Chappelle. E essa pureza é o que lhe confere seu poder. / Tradução Guilherme Sobota

Assista ao novo especial de Dave Chappelle, '8:46':

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