Reprodução
Reprodução
Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Purcina mergulhada em trevas

Um dia, gritou por socorro, tinha uma onça no quarto. Na verdade, ela via sua imagem no espelho

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2022 | 03h00

É um volume pequeno, mas impacta e comove. Atualíssimo. Dona Purcina, a Matriarca dos Loucos, da Oficina da Palavra de Teresina, foi escrito com dor por Cineas Santos, filho desta matriarca nordestina, acolhedora e generosa. Por que a produção do Norte e Nordeste não chega a São Paulo e ao Rio? Há um vácuo e perdemos momentos de emoção. Purcina, figura complexa, autoritária, doce e feita de certezas. Diz Cineas que ela, simples doceira do sertão, “com sua lógica enviesada, encontrava solução para os problemas mais complexos”. Acrescenta: “Para os muitos que a amavam foi extremamente doloroso vê-la no final da vida, ausente de si mesma, sequestrada pelo mal de Alzheimer”.

Este livro se encontra ao lado de quatro volumes que considero fundamentais no gênero. O Álbum Branco, em que Joan Didion estuda o luto, e Noites Azuis, em que a mesma autora fala do envelhecimento e da senilidade; De Profundis, de José Cardoso Pires que sofreu um AVC, com perda total de memória; e Perto das Trevas, de William Styron, que mergulhou em profunda crise de depressão. 

Cineas, em linguagem seca, fala da própria mãe com angústia, mas sem melodrama. Os momentos de apagão e lucidez. O dia em que ela gritou por socorro, estava com uma onça dentro do quarto. Na verdade, ela via a própria figura refletida em um espelho. Cobriram todos espelhos da casa. Ou quando, logo após negar água a um moleque, ela aconselhou o filho a jamais deixar de dá-la a um sedento. Outra vez, Cineas chegou: “A bênção dona Purcina! Ela: Deus lhe dê vergonha. Cineas: A senhora sabe que dia é hoje? Ela: Não sou dona de dia nenhum. Cineas: 20 de setembro, dona Purcina, dia do aniversário de seu filho mais querido. Ela: Que filho? Ele: Eu. Ela: E quem lhe disse que você é meu filho? Cineas: Quer dizer que resolveu me desfilhar? Sou um sem mãe, sem rumo, sem tudo, um maior abandonado? Quem vai querer me adotar? Ela: Deixe de bestagem, você não é meu filho, é meu irmão. E devia dar graças a Deus. Cineas: Irmão? E que ganho isso? Ela: Se fosse meu filho, era obrigado a cuidar de mim, sendo irmão, cuida se quiser”. 

Percorremos instante a instante a agonia de uma memória que mergulha nas trevas. Purcina é cuidada pela filha. “Cuidar de alguém com Alzheimer é meio caminho para a loucura”, diz o filho. E a mãe pirava, inquieta, agressiva, ansiosa. Não reconhecia mais a própria casa. Colocava três vestidos, um sobre o outro, para que não a roubassem, tomava sorvete e cuspia, dizendo que estava quente demais. Médicos deveriam ler esse livro, poético, humano. Quando romperemos esta muralha invisível que atravessa o meio do Brasil? E o Alzheimer? Terá cura um dia?

*Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor, autor de Zero e Não Verás País Nenhum

 

Tudo o que sabemos sobre:
Cineas Santosteatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.