Punk Vermelho

Condenadas por vandalismo, as garotas do Pussy Riot vão às raízes do punk para fazer soar o alarme na Rússia

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h07

Três punks russas decidiram enfrentar Vladimir Putin. E vão pagar caro por isso. Depois de cinco meses de detenção, as integrantes do coletivo Pussy Riot, Nadezhda Tolokonnikova, 22; Maria Alekhina, 24; e Yekaterina Samutsevich, 29, foram condenadas a dois anos de reclusão, ontem, por "vandalismo e incitação ao ódio religioso" pelo tribunal de Moscou. Em fevereiro deste ano, elas haviam invadido uma catedral ortodoxa para entoar uma reza punk intitulada Virgem Maria Mãe de Deus - expulse Putin. A performance durou apenas um minuto, mas o dirigente, que acabara de voltar à presidência, mandou as jovens imediatamente para a cadeia, sem direito a fiança. "Usar palavrões na Igreja é um abuso a Deus", justificou o promotor do caso.

Os movimentos de oposição, no entanto, não engoliram as acusações de blasfêmia. Denunciando um julgamento político, prova da ordem de repressão do sistema totalitário de Putin, alçaram as garotas a símbolo da nova juventude que contesta o governo russo. Multidões ganharam as ruas do país para pedir sua libertação, e figuras internacionais como Madonna, Sting, Bjork e Paul McCartney as apoiaram publicamente.

"Estamos bem com nós mesmas, mas isso não diminui o volume de nossa raiva", afirmam as jovens, em uma entrevista por e-mail ao Estado intermediada por seus advogados um dia antes do veredito. "À medida em que o julgamento avançou, mais pessoas, incluindo as que trabalham na prisão, se convenceram da veracidade do nosso discurso. Essas pessoas veem agora como o regime de Putin é feio e falso."

Mas quem são essas garotas que desafiaram o homem mais poderoso do país fazendo punk rock, uma música que nasceu para derrubar sistemas? Nascido no seio da classe média urbana há apenas alguns meses, o Pussy Riot se apresentava nos lugares mais imprevisíveis: fosse no metrô, no teto da prisão onde Alexeï Navalny, político perseguido pelo regime, está encarcerado. No ápice da provocação, ocuparam a Praça Vermelha cantando "Putin caga nas calças!". Adeptas de situações extremas, escondiam-se com máscaras balaclavas, permanecendo sempre anônimas, até serem presas.

A inspiração do coletivo vem de movimentos dos anos 90, como Bikini Kill e Riot Grrrl, que promoviam uma imagem feminina não estereotipada em letras carregadas de política. As guitarras pesadas e acordes toscos, aliás, não enganam: o som obedece às regras do hardcore e do low-fi sujo. Música e street art se juntam a slogans provocativos. Um exemplo de "arte de oposição", como explicou Nadezhda no tribunal.

Vale lembrar, no entanto, que Pussy Riot não é formado apenas por Nadezhda, Maria Alekhina e Yekaterina. Há pelo menos outras dez jovens (todas mulheres com média de 25 anos), que permanecem escondidas desde que o caso estourou. Duas delas, aliás, também participaram da performance na catedral, e ainda temem a Justiça. Mais do que proteção, o anonimato é também um ideal artístico para um coletivo que se considera indivisível e representativo. Cobrindo o rosto com uma balaclava, qualquer garota pode ser uma Pussy Riot e gritar sua raiva contra o regime. Como na Rússia atual, Putin e Igreja avançam de mãos dadas - a invasão à catedral teria sido apenas um passo lógico na atividade do grupo.

"Não esperávamos um processo criminal, porque não cometemos nenhum crime", dizem as garotas. "Mais do que tudo, não esperávamos que as autoridades fossem tão caricatas e estúpidas de nos perseguir, legitimando para a sociedade um grupo feminista anti-Putin."

Ainda é impossível saber como a sociedade russa irá reagir ao veredito, se irá aumentar seus protestos ou se recolher com medo. O certo, no entanto, é que as garotas colocaram Putin numa sinuca de bico. Segundo o advogado delas, Mark Feygin, o caso dividiu a sociedade entre os conservadores e os progressistas, que preferem os valores democráticos ocidentais. "O obscurantismo não combina com o moderno estilo de vida das jovens gerações", explica o advogado.

Feygin lembra que, desde que foram presas, o sentimento da sociedade em relação às garotas passou de "indiferença a simpatia". "Espero que as pessoas que não nos compreendem possam ao menos nos perdoar", declarou no tribunal a bela Nadezhda Tolokonnikova, considerada a "gênia diabólica" por trás do grupo.

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