Público volta às locadoras atrás de bons filmes

As locadoras reconquistaram o público e vêm batendo recordes de faturamento. A melhor prova são as filas nos caixas e os congestionamentos nos corredores onde estão expostos fitas e DVDs. A popularização do DVD, a desilusão com a TV a cabo e o aumento da insegurança na cidade são considerados os grandes responsáveis pelo boom. O alto preço dos ingressos nos cinemas completa a lista de estímulos a esse lazer doméstico. Casada, mãe de três filhos, a bancária Beatriz Stanisci gastaria pelo menos R$ 50,00 caso fosse com toda a família ao cinema, assistir a um único filme. Por menos da metade desse valor, ela pega quatro fitas ou DVDs que garantem o divertimento por todo o fim de semana. "Sai mais em conta e ainda fico tranqüila ao ver que todos estão em casa, em segurança", diz Beatriz. É esse o perfil do público que está voltando às videolocadoras. Entre 1997 e 1998 ocorreu uma evasão dos clientes, empolgados com as facilidades oferecidas pelas TVs por assinatura, irritados com a demora dos lançamentos, falta de fitas à disposição e com menos dinheiro no bolso, devido a uma das turbulências do Plano Real. "Foi um período em que muitas locadoras fecharam", diz o presidente da União Brasileira de Vídeo, Wilson Cabral, que também dirige a distribuidora de filmes Columbia Tri Star. Titanic - Mas a maré começaria a mudar embalada por um imenso transantlântico, condenado a repousar no fundo do mar. O sucesso de Titanic nos cinemas repetiu-se nas locadoras. O lançamento do filme em vídeo em setembro de 1998 iniciou o resgate dos clientes. Eram pessoas ansiosas por conferir o filme, que se negaram a enfrentar as mais de três horas de projeção na cadeira do cinema. "O vídeo tem essa vantagem. A pessoa desfruta o conforto de casa e pode interromper a exibição e retomá-la quando quiser", diz Cabral. Na mesma época, o DVD estreava nas prateleiras das lojas de eletrodomésticos e as distribuidoras aceleravam o passo tentando tirar proveito da febre digital. Em 1999, o Titanic seria relançado em DVD, impulsionando a venda de 350 mil unidades para locadoras. Participação modesta frente ao tradicional VHS, que vendeu 3,1 milhão. Mas as vantagens do novo equipamento fizeram o DVD avançar. Já em 2001 as distribuidoras venderiam 2,9 milhões de cópias de filmes no formato digital, mesma quantia das fitas em VHS. Já entre os títulos, o DVD assumiu a dianteira: foram 674 nesse formato e 485 no tradicional. Neste ano, segundo Cabral, a expectativa é que as locadoras adquiram 4,5 milhões de DVDs e apenas 2,6 milhões de fitas em VHS. Já os lançamentos no formato digital devem chegar a mil. "O DVD irá crescer 60%, enquanto o VHS deverá cair 8%", diz. Somados, DVD e VHS terão arrecadação de R$ 350 milhões, quase 270% mais do que os R$ 180 milhões de 1997. Esse resultado faz do País o sétimo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unidos, França, Alemanha, Japão e Austrália. No Brasil, há 8.380 locadoras, 2.531 delas em São Paulo. Os fabricantes de videocassetes reduziram ou descontinuaram a fabricação dos equipamentos, substituindo-os pelo novo sonho de consumo. Este ano a previsão é que sejam vendidos 800 mil DVDs, 120% mais que em 2001. Decepção - A TV a cabo contribuiu com força para a evasão de clientes em 1997. "A estratégia de entrada da TV por assinatura no mercado brasileiro foi eficiente. As pessoas acreditavam que teriam filmes inéditos, esportes e grande opção de lazer. Depois perceberam que não era bem assim", diz o diretor comercial da rede Vídeo Norte, Antonio Emílio Fidalgo. As distribuidoras cooperaram com as locadoras, ao reduzir o intervalo entre o lançamento de um filme no cinema e sua versão em vídeo ou DVD. É a chamada "janela", que segundo o dono da rede de locadoras 2001, Fred Botelho, costumava durar em torno de sei meses - hoje, são apenas 4 meses. "Com o intervalo menor, as pessoas ainda estão curiosas sobre o filme e o título tem maior saída na locadora", diz Botelho. "É outra vantagem sobre o cabo, já que a distribuição prevê que os filmes cheguem às lojas antes das emissoras." O presidente da Blockbuster no Brasil, Arthur Negri, lembra que nem sempre os horários satisfazem o público. Diante desse problema, o custo se torna elevado para o assinante e muitos desistem ou mudam para uma versão mais modesta de pacote. Negri atribui o grande salto da sua rede ao DVD. "Eles representam 60% de nossa receita. Neste ano, esperamos faturar R$ 67 milhões." Para ele, o modelo digital trouxe de volta o glamour às exibições caseiras. "As pessoas estão retomando o hábito de reunir amigos e família em casa para assistir a um filme." O bancário João Roberto Galdino prefere, em vez de alugar, comprar os DVDs. "Tenho filhos e as crianças adoram contracenar com os personagens. Elas assistem ao filme uma vez e logo querem ver de novo", diz "Com toda essa violência, é um meio de afastá-las das ruas." Esses novos tempos, exigem um bom preparo físico dos funcionários, que trabalham em média oito horas por dia. É uma rotina que não abala o bom humor de Ana Paula de Souza, da Locadora 2001. "Atendo cem pessoas por dia."

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