Público é voyeur em "Amor e Restos Humanos"

Carol e Davi formam um casal nadaconvencional - ex-amantes, buscam agora novos relacionamentos,ele com outros homens, e ela, insatisfeita com os parceiros,arrisca um caso com outra mulher. Os desencontros na vida decada um é o tema da peça Amor e Restos Humanos, que estréiaamanhã, no Teatro Sérgio Cardoso. E, numa época em que ovoyeurismo se tornou rotina, o espetáculo oferece um atrativoadicional ao público, que acompanha as desventuras do casal emuma arquibancada a 2m10 do solo. "Como muitas cenas acontecemsimultaneamente, as pessoas podem, àquela altura, escolher o queacompanhar", comenta o diretor Carlos Gradim, do grupo mineiroOdeon Companhia Teatral.A estrutura em que os atores atuam é engenhosa, formandouma espécie de gaiola de ferro também suspensa, mas a 2 metrosdo chão. "Isso permite que o espectador tenha a sensação de veralgo sem permissão, como se olhasse através de uma persiana."Amor e Restos Humanos foi escrita pelo canadense Brad Frasernos anos 80 e o título original aponta para o caminho que seguiusua dramaturgia: Restos Humanos não Identificados e aVerdadeira Natureza do Amor. "Por meio de personagens urbanos, ele discute problemas graves como solidão, individualismo, osexo pelo sexo e as drogas", comenta Gradim.De fato, sexo é indissociável do risco na dramaturgia deFraser, que escreveria depois Pobre Super-Homem, cujamontagem em São Paulo, dirigida por Sérgio Ferrara há dois anos,foi bem-sucedida. A busca obsessiva pelo amor ideal marca a vidade Davi e Carol, cujos relacionamentos normalmente terminam emfrustração e a inevitável solidão. "Infelizmente, é o retratoda sociedade atual, especialmente a das grandes cidades",afirma o diretor, que passou por momentos semelhantes, quandodecidiu morar em São Paulo, vindo de Belo Horizonte.Há dez anos, Gradim descobriu-se sem amigos e diante deinúmeras dificuldades para iniciar um relacionamento. "Viviaangustiado e acabei me identificando inteiramente com a versãocinematográfica da peça de Fraser, também chamada Amor e RestosHumanos, que o canadense Denys Arcand dirigiu em 1993", contao diretor, que logo saiu em busca dos direitos do texto.Depois de muita procura, período em que encontroutraduções de qualidade duvidosa, descobriu o contato do agentede Brad Fraser, que pediu uma valor exorbitante (US$ 10 mil)para liberar a montagem brasileira. "Apresentei todas asdificuldades financeiras enfrentadas por qualquer companhia deteatro no Brasil e acabei convencendo-o a liberar por um preçobem camarada", conta Gradim.Amor e Restos Humanos ficará em cartaz duranteapenas três semanas, por conta da dificuldade de espaço. Como aproposta era evitar um palco tradicional, havia a necessidade deum lugar que permitisse a colocação de uma arquibancada maiselevada em relação ao solo. "Trata-se de um ponto essencial doprojeto, pois permite ao espectador acompanhar, curioso, a cenaque mais lhe interessa", conta Gradim, que costuma assistir àsapresentações embaixo da arquibancada. "Dali, observo amovimentação das cabeças dos espectadores, o que é muitocurioso."Amor e Restos Humanos. De Brad Fraser. Direção CarlosGradim. De quinta a sábado, às 18h30; domingo, às 21 horas. R$10,00 e R$ 5,00. Teatro Sérgio Cardoso - Mezanino. Rua RuiBarbosa, 153, São Paulo, tel. 288-0136. Até 6/10.

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