Público e artistas lado a lado em Jericoacoara

Até o palco foi rebaixado para ficar quase no nível da plateia

LAURO LISBOA GARCIA, JERICOACOARA, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h08

Desde a primeira edição em 2009, o festival Choro Jazz Jericoacoara vem propondo um estreitamento da relação entre público e artista. A cada ano maior, a terceira edição reafirmou essa aproximação até na configuração do palco - antes bem acima da altura da cabeça de quem estava de pé, agora um pouco acima dos joelhos da plateia.

As oficinas também têm trazido resultados satisfatórios na formação de jovens músicos, como Manuel Jânio da Silva, que nos anos anteriores teve aulas de prática de conjunto, piano, harmonia e improvisação com Arismar do Espírito Santo, André Marques, Sizão Machado e Toninho Horta, agora passa a semana com o pianista Laércio de Freitas. Dividido entre atividades musicais em Jeri, Fortaleza e Alto Cruz, ele pretende passar uma temporada em São Paulo para aprimorar os estudos e se profissionalizar como músico. Um choro composto por ele foi aprovado com louvor pelo mestre.

Outra aluna dele é a japonesa Makiko Yoneda, formada em música erudita, que veio de Tóquio morar no Brasil para aprender música brasileira. Com residência fixa em São Paulo, onde frequenta rodas de choro, aqui ela demonstrou habilidade em temas de Tom Jobim ao piano e já tem samba no pé quase como uma carioca. O californiano Steve Robertson, pelo segundo ano consecutivo no País, é um dos que pegam o ritmo do maracatu e do xote com mais facilidade nas aulas do lendário baterista Nenê.

Como ocorre em lugares pequenos, a comunicação de músicos e público vai além das oficinas e shows. A pandeirista Roberta Valente, do grupo Choro Rasgado, por exemplo, é reverenciada cada vez que passa pelas ruas de areia com seu balanço a caminho do mar. A cantora Ana Luíza, que se apresentou anteontem ao lado de Luís Felipe Gama (piano) e Natan Marques (violão), saiu daqui recheada de elogios de nativos da vila, que se diziam emocionados com sua voz.

Além de clássicos de Leon Gieco, Milton Nascimento, Tom Jobim e Elpídio dos Santos, o trio apresentou canções de seu novo trabalho, Entrelaço, um CD duplo com 30 faixas de música e poesia. A noite em que ela cantou, aliás, foi também de outras vozes privilegiadas: as do paraense Nilson Chaves e do cearense Eudes Fraga, uma parceria de grandes e pungentes canções que justificam o que Yamandú Costa (um dos pontos altos da segunda edição) disse sobre este ser, além da música de primeira e do aspecto da educação, o "festival da emoção". Jean Garfunkel, que apresentaria seu trabalho voltado para crianças ontem e veio pela segunda vez dar oficina de composição, foi um dos convidados da dupla numa canção sobre o vento, com uma curiosa história por trás. Celso Viáfora (parceiro de Nilson), que conquistou o público na primeira noite ao lado de Ivan Lins, voltou a marcar presença já com novos fãs na plateia.

As duas primeiras noites tiveram shows experimentais na abertura, seguidos de outros mais populares. O primeiro foi o bandolinista Hamilton de Holanda com seu fabuloso quinteto, tocando temas do álbum Brasilianos 3, na melhor fusão de choro com jazz. Em seguida Viáfora e Ivan trocaram figurinhas num show que reuniu parcerias deles e realizações individuais.

Na segunda noite, toda instrumental, o Nenê Trio deu banho de jazz com colorido próprio, mas foi o quarteto paulistano Choro Rasgado (formado por Roberta Valente, Zé Barbeiro, Alessandro Penezzi e Rodrigo y Castro) a sensação da noite, tocando com espantosa habilidade temas de seu único CD, além de composições de trabalhos solos de Penezzi e Barbeiro e clássicos do gênero.

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