Público aprova novo formato do Festival de Rio Preto

Quem passava pelo calçadão do centro da cidade pouco antes do meio-dia de sexta-feira, mesmo apressado, diminuía o ritmo da caminhada para olhar para cima. Sentadas em cadeiras afixadas na fachada de prédios, a cerca de 8 metros de altura, senhoras entre 60 e 80 anos repetiam vagarosamente gestos cotidianos, como lustrar um bule, costurar um vestido, dobrar roupas. Nas ruas, ouviam-se perguntas sobre o significado daquilo. "Será um protesto?", indagava alguém. "Como ela tem coragem?", perguntava-se uma senhora aparentando a mesma idade da performer lá do alto.As instalações/performances, dirigidas pela alemã Angie Hiesl com grupos teatrais da terceira idade, faziam parte da programação internacional do Festival de Teatro de São José do Rio Preto, que terminou ontem, depois de movimentar a cidade durante 11 dias. O bailarino brasileiro Ismael Ivo, radicado na Alemanha, abriu a programação no dia 19 com As Criadas, de Jean Genet, espetáculo dirigido por Yoshi Oida, um dos principais atores da companhia do diretor inglês Peter Brook. Oida ainda dirigiu um workshop com a participação de 22 artistas locais.Com 30 anos de existência, o festival de São José do Rio Preto passou por uma transformação radical nesta sua mais recente edição. Até o ano passado, tinha um caráter amador e competitivo. Graças a uma parceria entre o poder público local e o Sesc/SP, tornou-se internacional. Mais que isso, sua 31.ª edição foi organizada de forma a ir além de uma simples mostra de espetáculos, ainda que ela tenha existido, e de boa qualidade ocupando os teatros locais. A curadoria apostou na idéia de que um festival de teatro é um momento propício à experimentação. A julgar pelas imensas filas diante das cabines do projeto 1,20 x 2,00 x R$ 0,50 e do casarão que abrigava a programação do chamado Não-Lugar, a idéia foi aprovada pelo público.O título do primeiro projeto é uma referência às dimensões e ao preço do ingresso de cinco cabines itinerantes, onde eram apresentados espetáculos de cinco minutos, para apenas uma pessoa por sessão. Numa delas, o espectador era recebido por um monge, de cabelos brancos, interpretado pelo ator Aldair Aquino, que estendia uma pires para a coleta dos R$ 0,50. Em seguida, convidava o espectador a sentar num banquinho para ouvir um trecho do Sermão aos Peixes, de padre Antônio Vieira. A beleza do texto aliada à penumbra na reduzida cabine, iluminada por velas, ambiente propício à concentração, resultava em interessante experiência teatral.O público fez filas para as cinco cabines que mostravam trechos de Hamlet, de Shakespeare, Mãe Coragem, de Brecht, Navalha na Carne, de Plínio Marcos, e Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. A coordenação geral de 1,20 x 2 00 x R$ 0,50 ficou a cargo de Jorge Vermelho, diretor do Teatro Municipal de São José do Rio Preto. Vermelho fez a seleção dos textos, dirigiu Hamlet e convidou artistas locais para a direção das outras quatro cabines.O sucesso de público acabou se transformando em problema na programação Não-Lugar. A convite da organização, diretores como Beth Lopes, Márcio Aurélio e Sérgio Carvalho e atores como Renato Borghi e Beth Goulart criaram curtos espetáculos baseados em textos de filósofos - Platão, Marx ou Schopenhauer - ou escritores como Lia Luft e Bonassi. As apresentações começavam às 23h30 nos quartos de um casarão, às margens de uma represa, ponto turístico local, para 20 espectadores por sessão ou por "quarto".Evidentemente, a organização apostou que tal programação atrairia um número reduzido de pessoas. Na noite de sexta-feira, às 22h30, já havia uma longa fila, que resistia ao frio intenso sob a chuvinha fina que caía. E os carros não paravam de chegar, estacionando ao longo da represa. O casarão transformou-se em ponto de encontro noturno. Diretores e atores ressentiram-se pela quantidade de pessoas circulando num clima de festa que não favorecia a concentração no espetáculo. Nada que não possa ser corrigido numa próxima edição. O interesse despertado serviu para mostrar que o público aprovou a ousadia dos organizadores.

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